Artigo de dom walmor

Você está em:

No horizonte da sociedade contemporânea está contracenando, com os números e outros avanços e cada vez com mais intensidade, a confiança como inestimável tesouro – uma referência não palpável, e sem possibilidade de armazenagem como cargas e produtos. No entanto, a credibilidade é imprescindível alavanca para sustentação de instituições, estabelecimento de relações duradouras e frutuosas. Além de ser o impulso e a garantia para todo tipo de crescimento na sociedade, visando o atendimento de suas muitas demandas na ordem social, política e cultural. Merecer confiança, em se tratando de pessoas e de instituições, é mais precioso que dinheiro.

O dinheiro não garante a fidelidade a princípios ou a coerência na busca de metas. Esta propriedade está na confiança que se pode depositar na palavra dada, na lucidez da escolha de prioridades, na honestidade do uso do que pertence a todos, e na inteligência de se escolher alternativas sustentáveis para a organização, produção e vivência na sociedade moderna. Este é um despertar que precisa ser acentuado e cultivado na perspectiva de que é precioso ser merecedor de confiança. As crianças, e os jovens também, precisam aprender que a maior conquista ocorre quando se pode, em cada circunstância e etapa da vida, merecer dos outros, da sociedade e da instituição à qual se pertence, irrestrita confiança.

Eis um ensinamento que se ministra, particularmente, pelo testemunho e pela conduta de adultos, dirigentes, governantes e lideranças políticas, sociais, ou religiosas. O merecimento da confiança, pensando a pessoa, sustentáculo de projetos e funcionamentos institucionais, inclui uma lista de pré-requisitos, práticas e fidelidade a princípios. Há um grande déficit de credibilidade, neste momento da história, em se considerando variados itens e elementos merecedores de avaliação. Há um descrédito que atinge desde situações simples até aquelas de alta complexidade e influências sobre a realidade, e no direcionamento dos rumos da vida social, política e religiosa.

É lamentável, por exemplo, a falta de confiança quando se trata de sigilos ou de reservas que respeitam privacidades e protegem andamentos institucionais. Há uma enorme facilidade de se emitir juízos e fazer comentários que constituem matéria própria e abundante para a confecção de um vasto tratado geral da fofoca. Também é comum, infelizmente, ao lado de comprometimentos graves, como a manipulação de informações e apropriações indevidas do erário público, a falta de compromisso com a palavra dada. E também sobre a consciência da fidelidade própria pedida da condição que se tem e da responsabilidade assumida, por consagração ou por profissão.

A credibilidade é uma conquista que precisa estar, sempre mais, na pauta das instituições e ocupar o lugar de prioridade na agenda pessoal em referência primeira à conduta pautada na moralidade e na irrestrita fidelidade a princípios éticos. É séria a corrosão institucional, a defasagem de projetos e os prejuízos humanitários quando, na lista de prioridades dos indivíduos, o merecimento da confiança, no que fala e faz, não ocupa o primeiríssimo lugar. O fracasso de projetos e instituições se explica a partir da pouca credibilidade de seus dirigentes, funcionários, operadores e agentes.

Não basta a honestidade de um. Conta o conjunto dos que atuam e assumem responsabilidades. Na verdade, esta questão não é apenas um indicativo de uma necessidade entre outras. Trata-se da urgente necessidade de criação e fomento de uma cultura – a da credibilidade. É uma cultura para tomar o lugar da insegurança sobre o nível e a intensidade da credibilidade que as pessoas merecem, nas suas falas, pronunciamentos, promessas.

A falta de confiança cria um terrível passivo humanitário e compromete andamentos decisivos para a vida da sociedade, das famílias e comunidades. Dobrada é a responsabilidade cidadã de todos empenhando-se por um mutirão de investimentos para configuração mais rápida e recuperação da cultura da credibilidade. Um aspecto desafiador nessa conquista é a formação da consciência e a superação da tendência de se dar por descontados compromissos e exigências inerentes à condição humana, funções e responsabilidades que se tem.

Jesus, na sua maestria, em diferentes oportunidades, tratou desse assunto com seus discípulos. O Sermão da montanha, nos capítulos sete a oito do Evangelho de Mateus, merecedor de permanente meditação e leitura orante, traz indicações de ouro para este exercício. Jesus insistia para que os discípulos se qualificassem de modo a ser merecedores de confiança. Neste exercício está o capítulo sempre primeiro da confiança que se deposita em Deus. É uma dinâmica que remete e ilumina a consciência abrindo caminho para ser merecedor de confiança. O cristianismo aposta por seus princípios e valores neste grande tesouro. O tesouro da confiança.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte