Artigo de dom walmor

Sexta-feira Santa é dia de silêncio profundo. Um silêncio especial que não se refere apenas aos barulhos. Trata-se de uma profundidade que vem da experiência genuína de contemplar a oferta maior, o gesto de Cristo – Filho de Deus -, imolado na cruz para a salvação da humanidade. E esse silêncio profundo da Sexta-feira Santa traz um convite e uma interpelação para todos: que ecoe nos corações a lição do amor. Eis uma necessidade urgente, pois o mundo, gradativamente, se acostuma a dar atenção prioritária para as espetacularizações e ao que estimula as polarizações. Ingredientes que geram a banalização do mal. E, assim, as perversões vão alimentando dinâmicas que passam a presidir vidas, escolhas, atitudes. Consequentemente, perde-se a visão humanitária e a sabedoria tão necessárias para superar a violência, para aproveitar adequadamente as potencialidades do desenvolvimento tecnológico e dos recursos ambientais, adotando parâmetros de uma ecologia integral.

A civilização contemporânea, mesmo com os recursos nunca antes conquistados, sofre justamente por falta de sabedoria e de visão humanitária. Por isso, proliferam cenários vergonhosos de pobreza, exclusão e discriminações. E se tornam cada vez mais comuns a incompetência, as condutas comprometedoras, as escolhas equivocadas, a carência de líderes, a ruptura de processos necessários para se avançar. Não é fácil reverter todas essas situações desoladoras. Mas é certo considerar que o cultivo da espiritualidade possibilita novos passos na direção de um mundo melhor.

Neste tempo da “febre” das redes sociais e dos mais variados recursos técnicos à disposição para se comunicar, nesta época de barulho ensurdecedor que vem das ruas e de tantos outros ambientes, há um comprometimento da capacidade de se silenciar cultivando a espiritualidade. E quem não se silencia, não escuta. Por isso, há incapacidade para ver o sentido que está guardado nos acontecimentos, nas pessoas, nos desdobramentos da história. Fala-se muito, mas sem assertividade. Emitem-se juízos eivados de parcialidades e distantes da verdade. A falta de silêncio, que não permite às pessoas escutarem, incapacita o ser humano para o diálogo. Hoje em dia, há muitos ataques pessoais dirigidos aos colegas em variados ambientes, a exemplo do tribunal e do parlamento. Também se tornaram comuns a profusão de notícias falsas e as hostilidades motivadas por fatos irrelevantes. A ausência do exercício do silêncio está comprometendo a qualidade do relacionamento entre as pessoas.

Por não exercitar a escuta de si, do outro e dos acontecimentos diários, cresce a tendência dos falatórios. O que se diz é desprovido de qualidade e a sociedade é arremessada nos desentendimentos. Todos, gradativamente, passam a adotar os ataques como mecanismo de defesa. Fala-se de tudo, sobre todas as coisas e pessoas, lamentavelmente. Isso gera desentendimentos, o que contribui para acentuar indiferenças, práticas cartoriais, apequenando a condição humana.

A Sexta-feira Santa oferece à humanidade, de modo celebrativo e interpelativo, a partir das reflexões sobre a Paixão e Morte de Jesus, o Salvador do mundo e Redentor da humanidade, a possibilidade de cada pessoa exercitar a competência de se silenciar. E desse modo, qualificar-se para o exercício do diálogo. A oferta de Jesus, de sua vida na cruz, é a fonte inesgotável do silêncio que, se for vivido, permite a conquista da competência para se relacionar com o mundo. Quem é capaz de viver o silêncio torna-se instrumento de transformação e contribui para debelar situações tristes, que levam a perdas irreparáveis.

Na Sexta-feira Santa, o convite a ser acolhido por todos é o de repetir, de coração, contemplando o Crucificado, o que disse o oficial romano presente na paixão e morte de Jesus: “Verdadeiramente, ele era o filho de Deus”. Essa é a mais completa experiência para conquistar o silêncio necessário ao diálogo. Um gesto que permite fazer brotar no coração as expressões que recriam, as condutas que enobrecem, resgatando o mais autêntico sentido de humanidade. Eis o silêncio que nos faz repetir as palavras de Santo Ambrósio: “Vós sofreis, Senhor, não por causa de vossas feridas, mas pelas minhas; não por causa de vossa morte, mas por nossa enfermidade. E nós vos olhávamos como um homem coberto de dores quando sofríeis não por vós, mas por nós. Pois ‘fostes ferido por causa de nossos pecados’ (cf. Is 53,5), porém essa enfermidade vós não recebestes do Pai, mas assumistes por minha causa. Porque era bom para mim que ‘a punição a ele imposta fosse o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura’”. Fecunde, no coração humano, o silêncio da Sexta-feira Santa.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Ilustração: Jornal Estado de Minas

Ilustração: Jornal Estado de Minas