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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O compromisso com a promoção e o respeito à dignidade humana é a possibilidade real de mudanças nos rumos da sociedade contemporânea e nos cenários que envergonham a humanidade. A primazia da dignidade das pessoas é a meta mais importante na vivência séria da cidadania. Lamentavelmente, a luminosidade da inteligência humana contracena e é obscurecida por irracionalidades, que submetem homens e mulheres a condições degradantes, ofensivas e prejudiciais à liberdade e autonomia. É preciso promover mudanças e uma nova compreensão capaz de impedir que a humanidade caminhe para o caos. Vivemos um tempo propício para isso, a Quaresma, quando a Igreja Católica convida a humanidade para ouvir Deus, fixando o olhar em Cristo Jesus, o Salvador e Redentor, preparando a celebração da Páscoa.

Exercício de espiritualidade, o caminho quaresmal é marcado pela experiência de amorosa escuta da Palavra de Deus. Também caracteriza-se por uma disposição para rever gestos e assumir atitudes mais condizentes com a dignidade humana. Trata-se de oportunidade singular para fazer crescer a solidariedade e a fraternidade, promovendo a qualificação pessoal e comunitária. A conversão do coração possibilita a cada um assumir uma conduta digna, percebendo todos como filhos e filhas de Deus, irmãos uns dos outros.  No itinerário quaresmal, a Igreja Católica enriquece o horizonte com a promoção da Campanha da Fraternidade que, neste ano, é iluminada pela Palavra de Deus com o lema “É para liberdade que Cristo nos libertou”, da Carta de São Paulo aos Gálatas. Assim, convoca todos para a coragem de reconhecer, compreender e atuar no horizonte da gravíssima situação gerada pelo tráfico humano.

“Fraternidade e tráfico humano” é o tema da Campanha que focaliza uma realidade chamada pelo Papa Francisco de “atividade ignóbil, uma vergonha para nossas sociedades que se dizem civilizadas”. O texto base da Campanha da Fraternidade 2014, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), também sublinha o absurdo desse atentado contra os filhos e filhas de Deus, limitando suas liberdades, desprezando sua honra, agredindo seu amor próprio pela exploração de sua vulnerabilidade social e econômica. Os traficantes geralmente são aliciadores que se aproximam das vítimas e de seus familiares, agindo como se fossem amigos. A pessoa é abordada com uma oferta irrecusável de trabalho, mas, levada a lugares distantes, é escravizada e torna-se prisioneira.

Esses aliciamentos se camuflam pelo recrutamento de pessoas para atividades diversas, a partir da promessa de um futuro promissor em diferentes carreiras, como as de modelo, jogador de futebol, enfermeiras, babás, garçonetes, cortador de cana, dançarinas, pedreiro e tantas outras. As vítimas são homens e mulheres, crianças e adolescentes. São reais as histórias de jovens aliciadas por redes de prostituição, levadas para lugares distantes de suas famílias, com a promessa de altos salários semanais, mas que são mantidas em cativeiro, em péssimas condições.

É hora de colocar cotidianamente na pauta de nossas ações a questão do tráfico humano, dedicando maior atenção aos acontecimentos para efetivamente oferecermos nossa contribuição cidadã aos organismos estatais. Também é preciso maior cooperação entre países na tarefa de se investir na solução desse grave problema. Torna-se cada vez mais urgente a união de esforços para fortalecer o enfrentamento dessas organizações criminosas que, entrelaçadas, se tornam sempre mais eficientes. O passo importante nesse enfrentamento será sempre o crescimento da consciência da primazia da dignidade humana.
 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte