Artigo de dom walmor

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

A envergadura moral e intelectual do Papa Bento XVI está incomodando o viés de uma pós-modernidade que, sem autoridade moral e por interesses não genuínos, realiza escalada de ataques a seu pontificado, disfarçando os rostos de arquitetos da maldade. São ataques tratados com a força perversa de calúnias infames e desrespeitosas. O enfrentamento do mal horrendo e abominável da pedofilia é um desafio na sociedade. Atingiu o corpo da Igreja Católica também, lamentavelmente. E a Igreja tem padrões morais, canônicos e disciplinares, advindos do Evangelho, para poder, com autoridade e transparência, posicionar-se segundo parâmetros de tolerância zero – o mesmo se espera também da sociedade. As omissões e tratamentos inadequados de casos de pedofilia exigem inadiáveis providências. Estas exigências incluem, de maneira decisiva, essa hora de purificação e profunda renovação na vida da Igreja, mais ainda da sociedade contemporânea.

O Papa Bento XVI recordou, testemunhando, que seu sustento é a força do alto. A coragem audaciosa e a autenticidade do seu testemunho ancoram o enfrentamento de fofocas e de interpretações perversas espalhadas para desestabilizar e atingir a credibilidade. Nessa hora desafiadora, a palavra do Senhor Jesus ilumina e mostra o horizonte da direção certa. Uma palavra que é súplica, recomendação e programa de vida: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem” pronunciada do alto da cruz, pouco antes de dirigir-se ao Pai, entregando o seu espírito. Sua morte é um silêncio profundo que, para desavisados e estultos, é como se fora um fracasso. Na verdade, é a vida duradoura que brota e, por sua ressurreição alcançada pela experiência da fé, é o sustento de toda verdadeira esperança. A vida que é a única razão e que dá sentido a tudo. Esse é o coração e a fonte da celebração desta Sexta-Feira Santa. Todos convocados a mergulhar nesse silêncio para encharcar o coração da verdade redentora que só o amor de Deus pode possibilitar.

É um mergulho no mistério da morte, fazendo tremer a condição humana frágil – que, amedrontada, se defende atacando de forma insolente e arbitrária, apegando-se ao que é transitório e de pouco valor. Eis aí uma fonte perigosa de descompassos no mundo. O Evangelho de Lucas 23, narra esse momento central de sua obediência amorosa ao Pai. Jesus se oferece, sem reservas, para salvar a humanidade. Sua oferta redentora é o contrário da ferocidade do ódio, que nasce da inveja e da vingança, e gera perversidades, estonteia cabeças e corações que só conseguem ver seus interesses e a destruição do outro. A súplica de Jesus, “Pai, perdoa-lhes”, ecoa forte. Um eco com muitos significados. Que entrelaça sentidos diferentes, aponta necessidades variadas. Convoca à novidade de uma vida passada a limpo no cadinho da conversão. Jesus suplica o perdão ao Pai. Ele conhece a condição humana marcada pelo pecado. Sua súplica é a expressão máxima de sua obediência amorosa. Nem precisaria dizer essas palavras.

O perdão é a única e insubstituível condição para que valha o amor e se possa começar um novo tempo, uma nova vida. Ao suplicar o perdão, Jesus sela a aliança nova com sua oferta. Uma garantia que só vem de Deus na oferta do seu Filho Amado na cruz. Essa súplica também é um programa de vida para os discípulos do Mestre e Senhor. A fonte do perdão que Ele põe no coração da humanidade, por uma aliança nova de salvação, é também um exigente compromisso de vida. Uma exigência que fecunda e dá lustro na tarefa missionária de anunciar a Boa Nova da salvação. O perdão pedido e a garantia do perdão dado configuram etapas permanentes no dia a dia da vida desses discípulos. O desafio de viver o amor começa sempre e se mantém na fecundidade quando se experimenta o perdão recebido e dado.

No reverso da nobreza do perdão, ato nobre de Deus no alto da Cruz, e de cada discípulo no cotidiano de sua vida, está o mais horrendo da condição humana marcada pela perversidade do pecado e pelo instinto atroz de destruir o outro. A destruição do outro pela ignomínia de atitudes pervertidas, como o horror da pedofilia. Com o Papa Bento XVI, a Igreja enfrenta o desafio de uma limpeza corajosa no seu corpo, com tratamento disciplinar de 0,9 % a seus padres incriminados, nos 100% de uma sociedade comprometida por esta e outras patologias. Garantindo aos mais de 98% de padres sérios e abnegados que, em seu trabalho missionário constroem comunidades de fé e fazem delas uma escola do perdão da vida e construtores da justiça, da solidariedade e da paz, merecedores de credibilidade. É o momento de um novo tempo para a Igreja que atravessa os tempos com a força do seu Senhor, Jesus Cristo, o único Salvador.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte