Artigo de dom walmor

A atual pauta da sociedade contemporânea está incluindo, com bastante frequência, temas importantes sobre a religião, confissões religiosas, vivências de fé, tradições, ritos e igrejas, além das suas relações com outras instituições. Particularmente diversificadas são as opiniões acerca do Estado laico e os alcances de suas relações com igrejas e práticas religiosas. O Estado é laico, é uma assertiva já com tom de antífona, mas a sociedade é marcadamente religiosa. Ainda, a laicidade do Estado não pode permitir que um tratamento discriminatório ou indiferente venha por parte dele, em se considerando especialmente seu dever de cuidar das necessidades básicas de sua sociedade. Seria uma temeridade banir religiões e igrejas dos cenários de uma sociedade.

É importante, então, que se faça esta discussão. É um percurso importante de maturação na compreensão destas questões. Trata-se de uma compreensão cuja clarividência é indispensável para que se possa garantir o bem comum, sem desconsiderar aspectos e dimensões que têm real importância na vida de um povo.  Esta discussão trata sobre o alcance e a significação da grande importância que a religião e suas diversificadas formas de confessionalidade têm tido na vida de cada pessoa. Assim também, tem tido grandes influências sociais, culturais e políticas na vida e na história dos povos. Por isso, é interessante acompanhar e fomentar esse debate para qualificar a reflexão que a sociedade contemporânea precisa produzir como alimento dado a ela mesma. 

Este debate sobre o lugar da religião e consequências práticas de sua vivência, ritos, tradições, como outros aspectos que a definem, tem oportunizado o início de uma abordagem mais substantiva sobre as questões que tocam o âmago das necessidades vitais da sociedade e dos seus integrantes. Não se pode tecer uma sociedade madura apenas com um ‘lero-lero’. Modo popular de dizer ‘conversa fiada’ e multiplicada, sem força de novas configurações, de mudança de mentalidade e produção de entendimentos sociopolíticos e antropológico-culturais novos.

Não é, portanto, só o PIB, o pré-sal, a destinação dos seus sonhados resultados financeiros, a sucessão presidencial ou o superávit primário que têm importância e garantem uma sociedade modernizada e desenvolvida. O que a sua população e instituições podem e sabem discutir e refletir tem força determinante sobre seu destino e desdobramentos na sua história. 

É necessário que a sociedade discuta questões que dizem respeito à importância e necessidade incontestável da religiosidade na vida de seu povo. Avançar, então, na discussão sobre a laicidade do Estado e da confessionalidade de Igrejas significa avaliar qualidades, procedimentos e comprometimentos. Não se pode brincar com vivência religiosa, mesmo descontando o natural e insubstituível respeito às liberdades individuais. E menos ainda entender e fazer do afazer religioso um negócio ou exploração mercadológica.  Nesta importante discussão de interesse para a sociedade é preciso focar as raízes, motivações e história das práticas religiosas. Não basta simplesmente fazer uma lei geral, considerada por muitos como um risco de liberação geral, para acalmar e acomodar fúrias religiosas ou garantir conivências políticas.

Não se pode correr o risco de garantir direitos de inventar uma religião e suas práticas a qualquer um. Do contrário, valerá o que cada um simplesmente disser, como se diz, tirando de ‘detrás da orelha’, e proclamando como verdade e como dogma o que anuncia. O cristianismo na sua autenticidade, enraizado na tradição judaica, se afirma pelo primado da palavra – que não é anunciado por qualquer pessoa. É o primado da Palavra de Deus. A Palavra de Deus que é Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós.

Este primado da Palavra exige dos discípulos de Jesus Cristo uma escuta cotidiana desta Palavra. Sem manipulações arriscadas que a enjaula numa panacéia milagreira, reduzindo a exigência de uma experiência de fé, obediência e confiança para transformar a vida, em expectativas de receber simplesmente o que se precisa, como se Deus fosse prateleira de supermercado na qual se apanha, gratuitamente, o que se quer.

O primado da Palavra de Deus tem no episódio contado por São João no capítulo seis do seu Evangelho, depois da multiplicação dos pães, a direção certa, quando muitos entenderam como duro demais o que Jesus estava dizendo, e o abandonaram. Perguntados os discípulos se queriam ir embora também, Pedro respondeu: “A quem iremos nós, Senhor, só tu tens palavras de vida eterna”. O primado da Palavra de Deus é fonte inesgotável de qualificação de toda palavra que se pronuncia, de todo juízo e de toda edificação. Palavra é vida e compromisso. O primado da Palavra de Deus é exigência de escuta permanente para qualificar o que se diz, e com o que se diz edificar.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte