Artigo de dom walmor

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

A Igreja é um corpo que, como corajosamente sublinha o Santo Padre Bento XVI, está ferido. Um corpo formado por muitos membros. E, como em todos os tempos da história bimilenar da Igreja, a ferida está nesses ou naqueles membros. O apóstolo Paulo, escrevendo aos Coríntios, primeira carta, capítulo 12, ensina essa compreensão de corpo para definir a Igreja, e o sentido de pertença de cada um. Paulo acentua que cada membro é diferente e importante. Sua condição, se ferida, ecoa em toda a sua extensão, em razão da insubstituível articulação entre os membros desse mesmo corpo.

Quando o Papa Bento XVI fala de uma Igreja ferida, nessa primeira década do terceiro milênio, está reconhecendo que há membros feridos, com repercussão em todo o corpo que é a Igreja. Importa, pois, alcançar a significação teológica dessa embasada compreensão para avaliar a identidade e a missão de que a Igreja é depositária por mandato do seu Senhor, Jesus Cristo – nascida do seu lado aberto, quando da oferta das ofertas, do alto da cruz oferecia a sua vida, obediente ao seu Pai por amor, pela salvação de todos.

É poética e espiritualmente rica a estrofe de uma canção religiosa, cantada na assembleia litúrgica eucarística, momento ápice da congregação visível desse corpo: “Sua Igreja é um corpo, cada membro é diferente; há no corpo certamente coração, ó meu Senhor. Dele nasce a caridade, dom maior, mais importante, nele enfim achei radiante minha vocação, o amor”.

Os muitos membros são todos os que professam a fé em Cristo, Senhor Ressuscitado. O coração, fonte do amor, só pode ser o próprio Deus. Deus é amor, fonte de vida. A vida dos membros e seu desabrochamento dependem dessa fonte de vida, o amor. Membros feridos são consequências do distanciamento do amor. Na  verdade, a Igreja é sempre um corpo chagado, sendo  que o seu coração é o amor, o próprio Deus.

As chagas no corpo da Igreja sempre foram e serão numerosas, em razão do pecado e da ação do maligno, pervertendo mentes e corações, criando feições na contramão da imagem e semelhança de Deus, o Pai Criador. As chagas que atingem o corpo que é a Igreja se configuram de muitas maneiras. Toda quebra da unidade, injustiça, disputa, exploração, desrespeito e irreverências ferindo a nobreza da dignidade humana, compõem a lista que pode fazer da Igreja corpo ferido. A pedofilia, crime hediondo, conduta abominável, é uma ferida que afeta todo o corpo. Agrava-se quando membros servidores consagrados desse corpo são os instrumentos desses acontecimentos nefastos.

A gravidade grande leva a uma repercussão desafiadora por conta da responsabilidade da missão, exigindo expurgação, providências, reparos. Um desafio emoldurado por entendimentos que se valem também para ataques que têm a intenção de fragilizar o corpo da Igreja. Isto não é novo. A Igreja Primitiva, conta Lucas nos Atos dos Apóstolos, nasceu sob a égide de muitos desafios e contraposições. Os tempos subsequentes não foram diferentes. Esses sofrimentos, advindos dessas feridas, são de chagas com origem externa e até mesmo internas. Há membro, muitas vezes, ferindo outros, pela disputa de poder, amor ao dinheiro, acomodação e usufruto de estruturas para autojustificação. Ainda, por deficiência do próprio membro que na relação com o outro se move pelo orgulho e pela inveja, deixando-se tornar instrumento da perversidade típica do maligno. Esse primeiro decênio da vida da Igreja nesse terceiro milênio, preconizado como o da mística e da espiritualidade, desafia a Igreja Católica a voltar, ainda mais, a suas fontes.

A Igreja Católica tem fontes e elas estão retratadas em memórias ricas, consignadas em experiências, monumentos, serviços, tradição imaterial, cultura gerada nos braços dos valores evangélicos. Um contrapeso incontestável, com força de resgate e ressurgimento, no confronto com as feridas do seu corpo, nos seus membros. A Igreja – ainda quando ferida nesses, por esses ou naqueles membros, e também pelas injunções da história de cada tempo, com suas mudanças e descompassos – contabiliza experiências, serviços, pessoas, muitos sacerdotes, alimentando e garantindo sua presença indispensável na vida da sociedade, um tesouro inestimável.

Se o seu corpo é ferido, tem em seu coração o amor de Deus revelado no seu Mestre e Senhor, Jesus Cristo, que lhe garante uma incontestável envergadura moral, credibilidade e força própria para renascer e continuar sua missão. Mesmo ferida, a Igreja é um memorial de referências e moralidade, indispensável, como se comprova, para a vida de povos e culturas.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte