Artigo de dom walmor

O terceiro milênio pede qualidades singulares para que as diversas iniciativas desse novo tempo tenham êxito. Velocidade e multiplicidade estão entre essas qualidades, mas a leveza é uma característica fundamental que merece a atenção e o esforço cidadão. É sabedoria essencial a todos, particularmente no exercício da liderança. Liderar com leveza é uma ciência que se aprende, uma arte a ser praticada. A desconsideração dessa qualidade explica a razão pela qual alguns líderes não conseguem conquistar os prometidos êxitos. De fato, trata-se de uma arte a ser alcançada por meio da aprendizagem e da experiência, que conferem a envergadura necessária. Caso contrário, se verificará o atabalhoamento de pronunciamentos e a falta de clareza a respeito de processos que supõem um passo a passo que leve a um bom termo.

Entenda-se que leveza na liderança não inclui, absolutamente, negociação de valores e princípios intocáveis. Aliás, leveza supõe domínio ético de valores e princípios que arquitetem e edifiquem uma postura condizente com as missões assumidas e papéis a serem desempenhados. Qualidade também importante para o cotidiano dos cidadãos. Infelizmente, ao invés de leveza, constata-se um “peso” nos contextos em que há reações e posicionamentos marcados pelas polarizações e radicalismos alimentados por belicosos e rancorosos modos de pensar e agir. Sabe-se que, cedo ou tarde, esse tipo de postura leva ao descrédito. A incompetência humana e relacional elimina a possibilidade de êxitos em qualquer iniciativa.

Preocupante, embora seja um “asteroide” que irá se desfazer pelos ares, é a conduta pouco cidadã e civilizada de certos indivíduos. Agrupados de modo inteligentemente orquestrado, com astúcia diabólica, operam na desconstrução de imagens das pessoas. No lugar da leveza sobre os trilhos de valores e princípios, caminho para êxitos, operam com fúria rancorosa e iconoclastia demoníaca. Aparecem, assim, os que se dizem cristãos e se autonomeiam guardiões de uma ortodoxia que comprovadamente é uma heresia crassa por estar na contramão dos valores do Evangelho de Jesus Cristo. Esses agrupamentos comprovam a invectiva de Jesus contra a conduta daqueles que querem tirar o cisco do olho dos outros e não se dão conta da trave que está no próprio olho.

Leveza como característica do terceiro milênio, na busca de operações exitosas em todos os campos do saber e do fazer, é também um veredito que aponta já, por seu “peso” arrastado, emoldurados por ódios e rancores, aqueles que vão desesperadamente perder as batalhas. Há um seríssimo equívoco de quem pensa ser possível, na contemporaneidade, alcançar êxitos fora do caminho da leveza – que propicia abertura ao diálogo permanente, fecundação de entendimentos lúcidos e intuitivos. Essas pessoas que agem alimentadas belicamente por rancores e crescentes ódios destrutivos de tudo e de todos se põem na contramão perigosa das bem-aventuranças, ensinadas por Jesus no Sermão da Montanha.

Leveza é condição indispensável e prática inigualável para se alçar à envergadura própria da estatura da fraternidade solidária que se assenta como exigência da verdadeira e bem vivida dignidade de filho e filha de Deus. Essa consideração, que vale para todos os indivíduos, é ainda mais importante para quem exerce a liderança. Se o líder, de qualquer segmento, não aprender a liderar com leveza, irá atropelar, com palavras e gestos, os processos sob sua gestão e nunca abrirá caminhos para intuições criativas na   proposição de soluções urgentes. Sem leveza, a sociedade contemporânea não sairá fácil da sua subjugação aos radicalismos, polarizações e fundamentalismos religiosos e políticos. Leveza tem propriedade civilizatória importante para uma sociedade violenta e desatinada. De muitos modos e por variados meios, especialmente pelas redes sociais, como também por posturas sem limites, pode-se constatar os nefastos efeitos da falta de leveza e seus consequentes prejuízos.

Leveza, desdobrada em civilidade, sentido de solidariedade, saudável entendimento do quanto vale respeitar e promover o bem comum é a saída para o tempo novo. Ao contrário, “pesos” que resultam de preconceitos e discriminações, ódios e rancores, disputas umbilicais para se afirmar como donos da razão, distante do amor vigoroso e transformador do Evangelho de Jesus Cristo, prejudicarão a sociedade. Nesse horizonte, está a responsabilidade primeira da aprendizagem e prática da leveza que confere competência para se enxergar com mais clareza os novos caminhos. A sociedade, para não perecer, precisa de pessoas capazes de liderar com leveza.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Ilustração: Jornal Estado de Minas