Artigo de dom walmor

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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

A conversa era de adultos na sala da casa. Estava presente uma garota que, pela aparência, tinha seis anos. O assunto não era propriamente do seu interesse, mas numa daquelas pausas costumeiras, que acontece nas conversas de adultos – às vezes pela seriedade do assunto que requer ponderações – a garota exclamou, como um gemido nascido do fundo do coração: “Estou com uma saudade do Papa João Paulo II!” Poucos dias antes, acontecera a passagem dele, deste mundo para a casa do Pai Eterno. Ninguém esquece a consternação que tomou conta de muitos corações, vinda dos mais distantes e diferentes cantos da Terra. Que provocou pronunciamentos de homens e mulheres que ocupam lugares importantes no poder e também de gente simples, até mesmo de uma inocente menina.

Sem perder o foco de considerações importantes e permanentes, levando-se em conta sua singularidade de vida e missão, o Papa João Paulo II, neste domingo, primeiro de maio, quando a Igreja celebra a festa da Divina Misericórdia – por ele instituída para o segundo domingo da Páscoa – está no horizonte da Igreja e do mundo, com a celebração de sua beatificação, presidida pelo Papa Bento XVI, em Roma, no Vaticano. O reconhecimento das virtudes heróicas desse Papa e o milagre atribuído à sua intercessão (a cura da religiosa Marie Simon-Pierre Normand, que sofria do Mal de Parkinson), segundo parâmetros médicos e outros necessários para tal reconhecimento, nas instâncias competentes da Cúria Romana, sustentam a importante celebração litúrgica na qual ocorrerá o rito que o tornará, oficialmente, bem-aventurado. Confirma-se, todos hão de se lembrar dos dias de seu funeral: a massa humana presente na Praça São Pedro, nos arredores da Cidade do Vaticano, entrando e saindo da basílica, formando um coro, ora expresso, ora silencioso, proclamando o mesmo que aparecia em faixas: Santo já!

Sua vida pessoal e o exercício de sua missão, vividos e sustentados por uma fé profunda e incondicional em Deus, geraram essa convicção e a força desse reconhecimento. Não há como contestar, é admirável! O fantástico de tudo isso tem um início que precede o uso de poderes, a ocupação de lugares de importância, a oportunidade de tomar decisões determinantes para a vida de pessoas ou de instituições, com influências na história de sociedades de todo o mundo. O nascedouro de tudo isso é a bondade, a convicção de que é bom ser bom. Convicção com força e propriedades para tecer uma consciência moral ilibada e sustentar uma conduta que está, radicalmente, na contramão de toda e qualquer suspeita de corrupções e de desmandos. Outra não é a razão que move o coração de quem compreende que o chamado de Deus para consagrar sua vida ao serviço do Evangelho é um mistério de amor. Ele mesmo, o Papa João Paulo II, se expressou a respeito disso, dizendo que não se trata de uma questão de evidências, mas sim de amor. Sua força modifica os corações, limpa a mente e ilumina, com propriedade singular, a inteligência que se emprega nas escolhas, nas decisões e na produção de avanços que precisam marcar o caminho neste tempo.

O Papa João Paulo II, para além de avaliações meramente ideológicas, que é um critério possível, – porém, jamais deve ser o primeiro para avaliar a grandeza de uma pessoa – é uma referência cujos traços completos inspiram, questionam. E também se tornam convocação para um entendimento diferente sobre a vida, instigando na direção de comprometimentos com incidências marcantes nos âmbitos social, cultural, religioso e político. Seu pontificado, longo e fecundo, marcou os cenários do turbulento segundo milênio; do século 20 com suas fortes cenas, muitas vezes de sangue; levando a Igreja a adentrar no terceiro milênio apostando diferente, a descortinar perspectivas novas no diálogo com as ideologias e as opções políticas. A produzir referências regulatórias nas relações entre povos, culturas e nações. Tudo isso sem abrir mão do que define o sentido completo da dignidade de toda pessoa humana, bem como do compromisso das instituições, inclusive, e em particular, da Igreja, de não renunciar à fidelidade que devem à verdade, ao bem e à justiça no amor, o único caminho para a garantia do equilíbrio que o mundo carece.

Assim como na garota, em nós fica a forte presença de João Paulo II. Referência admirável pela força de sua capacidade de mobilização, apontando sempre o Cristo, o Ressuscitado Redentor; aquele para quem ele convidou no início do seu ministério como sucessor do apóstolo Pedro, em 22 de outubro de 1978. Todos são convidados a escancarar as suas portas: do coração, da casa, das culturas e das sociedades, muitas vezes fechadas sobre si mesmas, nutrindo-se de parâmetros ideológicos preconceituosos, dissimuladores da incondicional liberdade humana e da oportunidade da vivência da fé como um patrimônio irrenunciável, sob pena de perder ganhos e rumos na vida e na história. Homem de Deus, do diálogo com todos, de coragem nas posturas, convicto em tudo. Simples, próximo e também amparado pela proteção da Virgem Maria, uma devoção que lhe valeu sustento – dela Totus Tuus. O bem-aventurado João Paulo II, nosso intercessor, sempre lembrando o João de Deus que passou aqui.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte