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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Os mineiros são os guardiões da Piedade, pois acolhem no coração o admirável conjunto paisagístico, ecológico, arquitetônico, histórico, cultural e religioso que é o Santuário da Padroeira de Minas Gerais. Este grande amor pelo Santuário ficou evidente com as muitas manifestações, empenhos e orações diante da tragédia ambiental ocorrida nesta semana: o fogo que queimou grande parte desse imenso tesouro ecológico da Serra da Piedade. Dói o coração ver o que aconteceu. A vegetação tostada, prejuízo irreparável numa flora preciosa, fauna sacrificada pelo fogo, que impôs fugas de pássaros e outros animais, em bandos, empalidecendo uma reserva cujo valor ainda é pouco conhecido. 

 

O início foi um incêndio em fazenda próxima ao território sagrado do Santuário. O cuidado preventivo, quando feito na hora certa, sem delongas,  evita esse tipo de tragédia, verdadeira chaga no mapa ambiental e no currículo dos responsáveis. Provavelmente, o cuidado, o zelo e a velocidade nas providências teriam evitado que as chamas, depois de dois ou três dias, alcançassem o terreno sagrado do Santuário Nossa Senhora da Piedade. Não há dúvida de que a natureza, sempre generosa, exemplar em lições para a humanidade, vai reconquistar a sua beleza, queimada por descuido, irresponsabilidades ou morosidades, infelizmente ainda uma característica da nossa sociedade.  Uma lentidão que insiste em permanecer. Mesmo diante de urgências, como o atendimento aos pobres, readequação de infraestrutura e a defesa do meio ambiente. 

 

Consola e fortalece o coração acompanhar as manifestações volumosas, a comoção provocada, à distância e no silêncio, irmanando numa só voz os corações que compreendem e testemunham o que reza parte da consagração à Padroeira de Minas: “No alto da Serra da Piedade, magnífica arquitetura divina, herança nossa que vamos sempre preservar e defender, Senhora da Piedade, pusestes vossa casa de clemência e bondade, Santuário de Minas Gerais”. Esta oração precisa crescer como compromisso, alargar-se como entendimento. Assim, todos compreenderão a grandiosidade desse dom de Deus, que reúne as riquezas de um Santuário Mariano, a reserva de páginas importantes, de personagens e da história de Minas. O Santuário Nossa Senhora da Piedade é um tesouro ecológico e um patrimônio histórico cultural, ouro precioso neste Estado diamante.

 

 

As labaredas que devoraram a vegetação, desfigurando a flora, atingindo cruelmente a fauna, certamente, trazem lições, que não são para os outros, mas para cada um de nós. O desastre ecológico mostra que o homem precisa equilibrar sua relação com o meio ambiente. Desse modo, superar definitivamente o impulso da exploração inconsiderada e incontrolável, que trata o planeta de modo agressivo, desconsiderando que o ambiente é a nossa casa. Ainda no meio do caminho, é preciso compreender e assumir posturas condizentes, desde o menor gesto até os grandes projetos e programas, para cumprir a tarefa de tutelar o ambiente como desafio e responsabilidade da humanidade. O fogo deve se tornar um indicador de nova postura por parte de todos, peregrinos, visitantes, habitantes de Minas, governantes, consagrados, servidores, ante a responsabilidade grave de cada um. 

 

Que a postura comprometida do governo estadual, em ações emergentes, em investimentos e apoios, ancorado na legalidade de patrimônio tombado, pelo decreto que declara o conjunto paisagístico, religioso e cultural do Santuário Nossa Senhora da Piedade como Atrativo Turístico de Especial Relevância em Minas Gerais, corrija, inspire e comprometa, cada vez mais, os governos municipais. Inspire, sobretudo, aqueles que têm o privilégio de estar na região da Serra da Piedade, no tratamento desse sublime bem da natureza que abre, particularmente pela presença espiritual forte de Nossa Senhora, caminhos para Deus. Que o fogo purificador gere nobreza comprometida e todos se tornem guardiões da Piedade.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte