Artigo de dom walmor

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Figuras insignes são aquelas que tecem a trama da vida com simplicidade, despretensiosamente, mas com a singularidade de tudo fazer com amor e bem feito. São diferentes das figuras plasticamente transformadas em mitos, com objetivos calculados, acirrando disputas. Figuras insignes estão na contramão do processo que gera celebridades – que são rastros efêmeros, com tempo curto de duração, muito curto mesmo. Os insignes se revelam no amor do dia a dia, fruto da paixão por uma causa, consciência clara de um serviço prestado aos outros, garantindo vida, jamais calculando reconhecimentos, menos ainda prospectando resultados e proveitos em favor de si ou de outros.

Os insignes não são medidos simplesmente por sua audiência, nem mesmo pelo tamanho de seus feitos. Insigne é o autêntico e zeloso pai de família, a mãe devotada e educadora, o profissional que marca suas ações com a excelência própria de seus dons, os cidadãos honestos, os amigos. O horizonte inspirador de figuras insignes é o gosto pelo serviço aos outros nutrindo sempre o sonho de melhorar a vida, fecundando o empenho pela justiça. Prezam, acima de tudo, a dignidade humana e o reconhecimento da insubstituível presença amorosa de Deus.

Jesus, em muitas oportunidades, investiu nesta educação básica de seus discípulos. Uma vez, narra o evangelista Marcos no capítulo nove do seu Evangelho, chegando em Cafarnaum, Jesus perguntou aos seus discípulos: “O que discutíeis pelo caminho?” Eles ficaram calados porque pelo caminho eles tinham discutido quem era o maior. Numa outra oportunidade, os discípulos, narra também o evangelista Marcos, no capítulo dez, ficaram indignados entre si porque os filhos de Zebedeu, Tiago e João, pediram a Jesus para que um se assentasse à sua direita e outro à esquerda, na glória. Jesus recordou-lhes que os que são considerados chefes das nações as dominam e fazem sentir o seu poder. E recomenda-lhes, “entre vós não deve ser assim”. A marca de insigne recebe quem se torna de todos servidor e, com audácia corajosa e inteligente, entende que o segredo da vida é edificá-la com a oblação de si mesmo.

É de suma importância, revisitando a história de um povo, de famílias e de instituições, atualizar na memória do coração as figuras insignes que até aqui teceram esta história. Não se trata apenas de uma simples recordação, lembrança para compor uma narração. Na verdade, trata-se de beber numa fonte inspiradora, nutrir gratidão para modulação de sentimentos e fecundidade da coragem para agir, iluminado pela responsabilidade de participar do legado que sustenta a vida na direção certa.

Não se pode correr o risco de destruir aquilo que custou sacrifícios, fruto de inteligência e de esforços. É obrigação somar e transformar toda herança recebida em força de serviço para o tempo presente. Assim cresce a rede de pessoas insignes. Não se vive da necessidade de alimentar mitos e nem da ilusão de experimentar a fugacidade da condição de celebridade. Este fenômeno de mitos e celebridades é revelação da falta de referência a princípios e pessoas desta história, facilitando o culto a personalidades e o sonho ilusório de conquistar lugares e condições a qualquer preço por tirania do desejo.

A caminho do cinquentenário da oficialização de Nossa Senhora da Piedade como padroeira do Estado de Minas Gerais, 31 de julho de 2010, fecundando a fidelidade na preservação da herança, e temperando a audácia de passos adiante pela gratidão, não se pode deixar de lembrar e reverenciar figuras insignes na história deste Santuário Estadual Nossa Senhora da Piedade. Esta lembrança e reverência alavancarão no coração um horizonte largo para a vivência do dom deste Santuário, plantado no alto da Serra da Piedade, 1740 metros de altura, indescritível bela e magnífica arquitetura divina.

Há uma rede, pois, de figuras insignes que inspiram gratidão, compromisso e conhecimento. Antônio da Silva, o Bracarena, sua terra natal em Portugal, inspirado pelas conversas a respeito da aparição de Nossa Senhora, no alto da Serra, enquanto trabalhava na Igreja da Villa Nova da Rainha do Caeté, tomou gosto e, abandonando outras pretensões, dedica-se inteiramente à construção do templo, a Ermida, no lugar das narradas aparições de Nossa Senhora. Bracarena abre caminhos, deixa a semente cair para frutificar outros corações que passam a viver da mesma paixão.

A paixão que o Santuário merece. E que só pode ser por esta mesma paixão – a do coração amoroso de Deus que seduziu o coração de outros ermitães, do Pe. José Gonçalves, Irmã Germana, Frades Capuchinhos italianos, Mons. Domingos Pinheiro, do Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, filho da terra e sacerdote auxiliar. E de modo especial, a figura insigne de Frei Rosário Joffily, merecedor de reverência por sua obra.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte