Artigo de dom walmor

Você está em:
A adoção de novas práticas é exigência que desafia permanentemente todos na  superação das crises enfrentadas pela sociedade. Na contramão desse caminho, o que se verifica é um arriscado afrouxamento, incompatível com as demandas de outras dinâmicas culturais. Basta um pequeno sinal de alguma melhora – mesmo ilusória – para se dirigir ao território da zona de conforto. Um lugar que abriga as justificativas e a inércia, adiando as ações mais efetivas rumo às mudanças. É comum a tendência de se pensar ter feito o necessário, embora, muitas vezes, as soluções alcançadas sejam apenas paliativas: não representam audaciosa intervenção nos funcionamentos, gastos, prioridades. A esperada e urgida superação da crise não pode ceder espaço para as comodidades conquistadas, muito menos para benefícios particulares adquiridos no interno de instituições e segmentos da sociedade.

Certamente, crises não são superadas sem os sacrifícios necessários para o benefício de todos. Assim, espera-se, de quem tem mais recursos, o gesto altruísta de abrir mão de algumas benesses. Porque o que se percebe é a indisposição para sacrifícios. A antífona para analisar e emitir juízos de valor a respeito dos muitos problemas não cessa. Porém, na prática, promovem-se reduções, cortes e novas configurações no modo de produzir e trabalhar buscando apenas aumentar a própria produção para  acumular mais vantagens e riquezas. Não se vê, na frequência esperada, atitudes de oferta e de partilha dos que ganham bem. As dificuldades dos que precisam de ajuda pouco afetam as consciências e as atitudes de quem pode mais. Assim, diante das crises, age-se apenas a partir da expectativa de que a situação melhore para si, desconsiderando o outro.

Uma nova cultura é a grande exigência para superar os muitos problemas sociais. Isso significa que, além das indispensáveis mudanças nos funcionamentos institucionais, é preciso rever prioridades, renovar condutas pessoais. Na prática, essas transformações devem corrigir descompassos que incluem o desperdício – de energia, alimentos e de outros recursos – e não se medir, em importância e reconhecimento, apenas pelo tamanho da própria remuneração – postura que alimenta seguranças ilusórias e tem como parâmetro a idolatria do dinheiro.

Por tudo isso, fica evidente que a superação das crises não pode reduzir-se às intervenções sobre os rumos da economia, conforme os ditames, orientações e opções das instâncias financeiras e de controles. Não conseguir abandonar hábitos e funcionamentos pautados pela idolatria ao dinheiro – que se desdobra na quase patológica necessidade de aumentar benefícios – é contribuir para acelerar processos de desumanização. É querer superar as crises sem sair da própria zona de conforto. A exigência é a partilha e a adoção de outras lógicas, baseadas na generosidade. Porém, o que se percebe é a postura de “fechar as mãos”, por medo de perder o que se tem.

Essa e outras fragilidades no tecido da cultura põem a expectativa da superação das crises, particularmente a econômica, restrita à melhora de índices relacionados à circulação de bens de consumo. Trata-se de estreiteza que inviabiliza uma reforma financeira adequada e terapêutica, pois deixa de lado novos parâmetros éticos que poderiam promover mudanças de atitudes. Com esses parâmetros, seria mais comum ver ricos ajudando pobres. O Papa Francisco, na sua exortação sobre a alegria do Evangelho, sublinha a importância do aprendizado de uma solidariedade desinteressada e a conversão da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano. Eis o caminho para superar muitas crises da sociedade. Um percurso longo e doloroso, por exigir mudanças profundas na cultura. Transformações capazes de derrubar a defesa que encouraça o cidadão na indisposição de inserir-se em um projeto comum, que vá além de benefícios e de desejos pessoais. 

 
 
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
 Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte