Artigo de dom walmor

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Os cristãos não podem se conformar com este mundo. Esta indicação do Apóstolo Paulo é bem adequada para a atualidade, quando as pessoas se deparam com diferentes ideologias. Cada uma delas, capaz de promover variadas configurações para os contextos social, político e cultural. Diante dessas ideologias, os cristãos não podem negociar os ensinamentos do Evangelho. Os valores cristãos inspiram a cidadania do Reino de Deus e, consequentemente, a cidadania civil, de modo a qualifica-la.

Obviamente, ser fiel aos princípios cristãos, diante das mais diversas ideologias, não significa isolar-se ou distanciar-se do mundo. Os discípulos de Jesus têm o compromisso insubstituível de testemunhar, com a vida, a sua fé. Vale retomar o que ensina o Sermão da Montanha. Jesus, na sua maestria, define e convoca seus discípulos a serem “sal da terra e luz do mundo”. Conforme orienta o Mestre, a luz, referência a comportamentos e condutas, não pode ser colocada debaixo de um caixote, por ter a propriedade de iluminar todos os que estão na casa. No que se refere ao sal – referência à sabedoria – não pode perder o seu sabor, tornando-se insosso.

Sal e luz, alusões diretas e instigantes ao comportamento cristão, no contexto de sombras e dissabores próprios do mundo. Por isso, a tarefa missionária de todos é cultivar um jeito de ser que esteja em sintonia com a condição humana de filhos de Deus. Dessa forma, cada pessoa torna-se instrumento para alcançar o que se antevê pela fé: a consumação do Reino de Deus. Jesus, no capítulo 17 do Evangelho de São João, ora pelos discípulos e pede a Deus que não os retire do mundo, mas, ao mesmo tempo, não os deixe “ser do mundo”. Permaneçam fiéis e íntimos do Pai, a exemplo de Jesus, para alcançar a audaciosa meta: que “todos sejam um”.

O Evangelho, no conjunto da revelação que a Palavra de Deus apresenta, é um arcabouço espiritual e moral insubstituível, páginas que configuram a identidade do discipulado em Jesus Cristo. Dedicar-se às Sagradas Escrituras revela uma certeza: a Palavra de Deus é maior que ideologias, sempre marcadas por limitações. Os cristãos não podem permitir que o Evangelho de Jesus, límpido e cristalino ensinamento, seja confundido, misturado, substituído ou negociado, para se adequar a qualquer tipo de ideologia – seja política, de gênero, cultural ou qualquer outra. Ora, distorcer o que ensina o Evangelho é, justamente, estar na contramão do que diz a Palavra de Deus. Trata-se de um grande risco, pois todos podem ser arrastados pelos estereótipos de “esquerda” ou de “direita” que empunham bandeiras incontestavelmente opostas às lições de Cristo.

A complexidade desse risco se agrava no momento em que certas ideologias disseminam características aparentemente similares às do Evangelho, mas, na verdade, promovem a mistura “do joio com trigo”. Existem, ainda, os que dizem defender os ensinamentos cristãos, mas, na prática, agem na contramão do Evangelho. Deve-se, pois, ter clareza sobre os valores e princípios que nascem da Palavra de Deus, para não misturá-los com o emaranhado de ideologias que permeiam o caminho sociocultural e político da sociedade.

Os panoramas históricos e tipológicos de ideologias comprovam as suas complexidades, demonstradas pelas relativizações ou defesa de certas situações compreendidas como “verdades absolutas”. Isso é bem diferente do Evangelho, origem de uma antropologia e uma espiritualidade que não permitem adaptações. Sabe-se que é impossível para uma sociedade ser distante ou isenta em relação a ideologias. Por isso mesmo, é muito necessário reconhecê-las como uma circunscrita visão de mundo. Uma perspectiva, entre tantas, que se torna ponto de partida para ações de pessoas ou grupos. A partir dessa realidade, pede-se a cada cristão, diante da ideologia de gênero, de ideologias político-partidárias ou culturais, para resistir, na força do testemunho de fé. Uma postura necessária para fazer valer a ética e a moral do Evangelho de Jesus, no conjunto de sua Palavra, que é de Deus, desdobrada na Doutrina da fé e nos seus ensinamentos.

Oportuno e qualificado exercício é ler, meditar e orar o Sermão da Montanha, capítulos cinco a sete do Evangelho de Mateus, para uma avaliação pessoal e de grupos sociais. Quem se dedicar a esse exercício, diariamente, viverá um processo contínuo de purificação, livre de ideologias, acima delas. Testemunhará com fidelidade o Evangelho.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Ilustração: Jornal Estado de Minas