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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O segundo turno das eleições deve ressoar como convocação peremptória ao cidadão, para que este indispensável exercício de cidadania influencie na definição de rumos, horizontes e metas na vida da sociedade brasileira. Está em jogo o que se quer para o próximo quadriênio, em se tratando da Presidência da República. É indispensável que a consciência cidadã motive o compromisso do comparecimento às urnas. Não se pode correr o risco, como tem sido a preocupação acenada, de o feriado se tornar um impedimento inviabilizando esse comparecimento. O lazer merecido e as premências de compromissos não podem, é verdade, relativizar a seriedade deste momento decisivo de ida às urnas. Adiar, por horas ou por um dia, um plano de viagem ou de lazer é mais do que necessário e justificável. Este apelo precisa encontrar lugar no coração de cada um e se tornar força de motivação e convencimento para tantos outros.

Trata-se, desse modo, também, de um serviço político-cidadão da maior importância para que os resultados das urnas respondam e correspondam às necessidades da sociedade brasileira. Não se pode brincar com algo tão sério como este importante momento para a história política do Brasil. Em jogo está o destino e o futuro da sociedade. Quem tem fé sabe o quanto seus valores iluminam o compromisso do voto. Sabe também que esse ato não pode ser substituído por outra pessoa, para além do fato de ser obrigatório por força da legislação. Nesse mesmo âmbito, está a razão da cidadania que hospeda o sentido mais nobre de sua liberdade e autonomia. Votar não é, bem se sabe, um simples compromisso partidário ou um ato qualquer de apertar a tecla confirma. Nas mãos de cada cidadão está um pouco do muito que pode fazer grande diferença nos dias que vão se suceder ao longo do quadriênio 2011/14. O projeto de sociedade que vai se discutir, implantar e avançar dependerá, decisivamente, do candidato eleito. Nesse contexto, está o grande discernimento para escolher adequadamente. É óbvio que não se sufragará candidato perfeito. Não existe candidato perfeito, porque a vivência da cidadania, no que toca à complexidade e riqueza de seu tecido, será sempre um desafio posto nas exigências de respostas, compromissos com valores, sentido contundente para o social e político. 
 
É preciso, então, iluminar os nomes dos candidatos com valores que dão sustentabilidade à cidadania e com as exigências do compromisso social e político com a vida do povo, particularmente dos mais pobres. O governo que se quer não pode ser distante do sentido social mais apurado e deve ser permanente garantia em programas e projetos de inclusão e superação da miséria. Não se pode parar de avançar na mudança do atual cenário. Em discussão está, portanto, a vida, em todas as suas etapas, desde a fecundação até a morte com o declínio natural. São confrontos que estão no âmbito complexo da moralidade. Aqui se constata um déficit e grandes desafios que não pertencem a um ou outro cidadão ou candidato. As questões morais têm sido deficitariamente enfrentadas, aprendidas e vividas de modo geral na sociedade contemporânea. 
 
É imoral o aborto, como é imoral a fome e os óbitos em consequência da desnutrição. É imoral, também, as vidas ceifadas por conta da dependência química e de outros fatores advindos do egoísmo ganancioso e de um entendimento da sociedade a partir do lucro perverso. O desafio moral está posto na sociedade e precisa ser discutido e enfrentado, não apenas pela Presidência da República, mas também por todas as instâncias e segmentos variados. O desafio do discernimento aparece na hora de escolher em quem votar. Ninguém pode ser esperado como salvador da pátria. Uma nação se constrói e se transforma, na direção adequada, com a participação política e cidadã de todos, dos segmentos que formam o tecido da pátria, e não simplesmente por um partido ou por uma pessoa.
 
As expectativas existentes deverão ser respondidas por um conjunto de fatores e atuação de pessoas e grupos, e pelas reformas tributária, fiscal, previdenciária, política e outras, até com dinâmica revolucionária. Torna-se importante garantir que não haja retrocessos políticos nas conquistas sociais, contornos e sustentos imprescindíveis para se respeitar e promover a vida. A Igreja Católica continua, serenamente, na sua posição de orientar nesse horizonte e de indicar esse caminho, sem se confundir com posturas que são até interpretadas como resultado de enfraquecimentos ou divisões. Nesta serenidade e clarividência, a Igreja motiva a todos a irem às urnas com a certeza de que o Brasil precisa continuar avançando no caminho do respeito à vida por um desenvolvimento social integral.
 
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte