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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Refletir sobre o sistema financeiro é sempre crucial. Torna-se um exercício ainda mais importante na atualidade – vivemos outra significativa crise econômica que está assombrando sociedades, nações e instituições pelo mundo afora. Numas regiões do planeta a crise é sentida mais agudamente, noutras de maneira menos forte. Contudo, sempre cabe questionar a lógica do sistema financeiro e monetário internacional.

No atual momento da economia global, torna-se ainda mais oportuna a Nota do Pontifício Conselho Justiça e Paz, importante órgão da Sé Apostólica no auxílio ao Santo Padre, o Papa Bento XVI. O documento destaca que o Evangelho de Jesus Cristo não é uma tinta verniz nas culturas, para os povos e para os sistemas. Tem força configuradora, com prerrogativas para correção de descaminhos e balizamentos de horizontes para os rumos de uma pretendida sociedade igualitária, solidária e justa.

 A Nota do Pontifício Conselho Justiça e Paz leva em consideração a situação atual do mundo que exige uma abordagem complexa, capaz de incorporar articuladamente os aspectos econômicos, culturais e espirituais. Há, pois, um grande espaço para a colaboração da Igreja Católica, perita em humanidade, sempre buscando cumprir sua tarefa de servidora e educadora no coração da sociedade contemporânea. A Igreja se pronuncia sobre os mais diversos assuntos a partir de sua fidelidade ao impulso do Espírito Santo Consolador e da consciência sobre sua tarefa na Obra de Cristo. É sempre solidária com os mais pobres e sofredores, operária do bem da humanidade. A Igreja assume as preocupações dos povos, particularmente daqueles que mais sofrem o peso da situação mundial atual. Deseja sempre colaborar com as autoridades civis e políticas.

Por isso, a Igreja Católica considera urgente e inadiável a necessidade de se refletir uma reforma do sistema financeiro e monetário internacional. Uma reforma que alimente a esperança de um futuro melhor, com mais dignidade e capacidade para as pessoas fazerem o bem. Essa reforma nasce do compromisso de cada indivíduo em buscar melhorias nas condições de vida de todos, preservando os valores e a riqueza de tradições, o verdadeiro tesouro sustentador da vida como dom que dá gosto ao viver. A grave crise econômica e financeira deste momento tem causas variadas. São muitas as opiniões, das que apontam erros de políticas econômicas e financeiras, passando pelo comprometimento da ética nas intervenções diversas e de diferentes níveis, até o quadro de uma economia mundial dominada pelo utilitarismo e pelo materialismo. A Nota da Santa Sé conclui que a crise é resultado de uma combinação de erros técnicos e de irresponsabilidades morais.

Além do tratamento inadequado dos recursos naturais, nos últimos decênios verifica-se um aumento do crédito, promovido pelos bancos, que acentua o consumismo. Ainda que explicitado de modo sintético, sabe-se que o sistema econômico foi empurrado na direção de uma espiral inflacionária que encontra limites, podendo escorregar, com facilidade, na direção da falência massiva de instituições e, em consequência, a queda de todo sistema econômico e financeiro.

A história dessas últimas décadas precisa ser retomada, entendida e analisada à luz de critérios e valores que ajudem a encontrar a solução do grave problema que se coloca, não permitindo apenas o uso de procedimentos paliativos ou sazonais, sem resolver a questão de fundo. O Papa Bento XVI, na sua encíclica social, Caritas in Veritate, apontou com clareza e com precisão que a raiz de uma crise não é apenas de natureza econômica e financeira, mas, acima de tudo, de ordem moral, além de ideológica. O Papa ressalta a importância de considerar que a economia poderá alcançar o seu funcionamento correto, não por meio de uma ética qualquer, mas a partir de uma ética amiga. Nesse âmbito, o Santo Padre denuncia o papel funesto do utilitarismo e do individualismo. A denúncia feita pelo Papa Bento XVI aponta a perversidade da ideologia e da tecnocracia. A resposta à pergunta: “e o sistema financeiro?”, para ser adequada e inteligente, precisa assumir, com clarividência, o significado e o alcance da técnica e do desafio ético posto à sociedade contemporânea.

É urgente continuar avaliando o grande desenvolvimento econômico e social do século passado, com suas luzes e sombras, a tecnologia, os progressos do mundo digital e suas aplicações na economia, para alcançar a compreensão sobre crise a financeira atual.

Dom Walmor Oliveira da Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte/MG