Artigo de dom walmor

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O bispo da Igreja Católica, um sucessor dos apóstolos, daqueles apóstolos primeiros chamados pelo Mestre Jesus Cristo, assim constituídos por Ele, é nomeado de ‘dom’, uma titulação precedendo o seu nome de batismo. A respeito desses primeiros apóstolos, o evangelista Marcos narra que “Jesus subiu a montanha e chamou os que ele quis; e foram a ele. Ele constituiu então doze, para que ficassem com ele e para que os enviasse a anunciar a Boa Nova, com o poder de expulsar os demônios” (Mc 3,13-15).

É chamado de dom aquele que é bispo, tradição de dois mil anos, na Igreja do seu Mestre e Senhor. Bispo, portanto, não é um título que alguém pode arvorar e definir para si, como fundador e líder de um grupo de fiéis que passam, ainda que por razão de práticas religiosas, a se definir como uma Igreja. A Igreja nasce do querer e do coração do seu Mestre e Senhor Jesus. O querer é de Cristo, aquele que morreu e ressuscitou.

Dom não é, então, um simples título honorífico. Não é uma formalidade para nomear uma pessoa. Dom é referência a uma pessoa – consagrada para a missão que o Senhor Jesus deu àqueles onze primeiros chamados. E que permaneceram com Ele, numa tradição sucessória ininterrupta, nestes dois mil anos de existência da Igreja Católica. Uma existência sustentada, em meio às vicissitudes do tempo e da história, pela fidelidade e obediência corajosa ao mandato do seu Mestre.

O evangelho segundo Mateus narra a cena dos “ inícios” em referência ao grupo daqueles que ao longo dessa história vem perpetuando, no tempo, esse mandato de Jesus, no contexto da língua portuguesa, no Brasil, referidos como dom. “Os onze discípulos voltaram à Galiléia, à montanha que Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram, prostraram-se; mas alguns tiveram dúvida. Jesus se aproximou deles e disse: ‘Foi-me dada toda autoridade no céu e na terra. Ide, pois , fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,16-20).

O Senhor Jesus ressuscitado prometeu a esses discípulos, os onze primeiros dessa tradição e sucessão apostólica: “Eu enviarei sobre vós o que o meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto” (Lc 24,49). O evangelista Lucas narra também, nos Atos dos Apóstolos, que esses primeiros onze discípulos, indagaram de Jesus sobre o estabelecimento do Reino para Israel. A resposta ilumina o entendimento das raízes que constituem um bispo, chamado e conhecido como dom: “…recebereis o Espírito Santo que virá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra… Então os apóstolos deixaram o monte das Oliveiras e voltaram para Jerusalém, à distância que se pode andar num dia de sábado.

Entraram na cidade e subiram para a sala de cima onde costumavam ficar. Todos eles perseveravam na oração em comum, junto com algumas mulheres – entre elas, Maria, mãe de Jesus – e com os irmãos dele… Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam reunidos todos no mesmo lugar. Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 1,8.12-14;2,1.4).

Dom é aquele que, nesta sucessão apostólica congrega, como sinal visível da unidade, uma porção deste Povo de Deus, como Igreja, comunidade de fé. Esses sucessores dos apóstolos, à frente das 32 dioceses de Minas Gerais e Espírito Santo – constituídos no Conselho Episcopal Regional Leste 2 (um dos 17 regionais da Conferência Nacional do Brasil), estão congregados para uma visita a Roma do dia 5 a 19 de junho. É a visita ad Limina Apostolorum: ao lugar onde os apóstolos Pedro e Paulo testemunharam sua fé, oferecendo suas vidas.

Roma é o lugar. Lá está o sucessor de Pedro, o Papa, o Santo Padre Bento XVI. Os bispos do mundo inteiro, periodicamente, vão a Roma, para esta visita que inclui espiritualidade, estudo, convivência, reflexões e encontros, reavivando a memória do coração – a riqueza da tradição, e tem como coração o encontro com o Papa. De novo, em cada tempo, aquela experiência de Paulo apóstolo, por ele mesmo descrita, na carta aos Gálatas, quando saiu de Damasco e foi a Jerusalém para conhecer Cefas e ficar com ele 15 dias. Aquele momento fortaleceu o apóstolo que partiu em missão, movido pela graça, e sustentado pelo encontro com Pedro. A consagração no ministério de Bispo é compromisso não apenas de ser chamado dom, mas de ser, verdadeiramente, dom para todos.

Dom na tarefa de congregar na unidade, para além da administração. Dom na experiência de ser, nesta época moderna, sinal e inspirador da procura de sentido, no seguimento de Jesus Cristo, na condição de contemplativo presente no mundo, seu conhecedor e intérprete de suas perguntas. Buscando respostas, servindo especialmente aos mais próximos, solidariamente próximo a todos.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte