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Dom Walmor Oliveira de AzevedoO Papa Francisco na sua Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual sublinha o quanto é indispensável e importante a cultura marcada pela fé e a sua dimensão determinante nos rumos e tradições de grupos humanos pelo mundo afora.

É incontestável o legado recebido por culturas seculares, em valores humanísticos e espirituais, em razão do anúncio, aprendizagem e vivência da fé cristã. Um legado que tem como referência uma fonte inesgotável que é o Evangelho de Jesus Cristo, e ele próprio, Redentor e Salvador.

A contemporaneidade continua necessitada da oferta preciosa que vem desta fonte. Independentemente de todo tipo de crítica, até mesmo merecida, às configurações morais com excessivos rigores ou anuências tácitas frente às posturas discriminatórias e prejudiciais, a dinâmica da fé cristã continua indispensável. É fundamental, especialmente, quando se trata da busca do equilíbrio humanitário na importante tarefa de afastar o mundo do caos moral e espiritual para o qual caminha, em razão de hegemonias dadas ao dinheiro e às relativizações ético e morais.

Sem aprofundar aqui sobre a importância da fé na cultura, do ponto de vista histórico-social, ou mesmo na explicitação de sua rica dinâmica interna, faz-se importante redobrar a atenção quanto ao que lhe é próprio, conferindo às culturas consistência adequada e equilíbrio das relações sociais e políticas no interno das sociedades.

A dinâmica da Igreja no anúncio do Evangelho para a vida do mundo precisa avaliar permanentemente vários aspectos importantes para que sua mensagem não seja equivocada. Neste sentido, por exemplo, o Papa Francisco adverte quanto ao risco de um perigoso mundanismo espiritual que pode tomar conta das igrejas e permear a definição de seus projetos e eventos. Entendendo-se por mundanismo espiritual – como diz o Papa Francisco –  a dinâmica que esconde atrás das aparências de religiosidade, até mesmo de amor à Igreja, a busca da glória humana e do bem estar pessoal, em vez da glória do Senhor.

Nas mais ricas e autênticas tradições espirituais do Cristianismo, a glória do Senhor, não é, senão, a vida plena do homem, fazendo do outro destinatário de um amor comprometido. Daí nasce o rico corolário que implica a autenticidade da fé mais do que a prioridade do bem estar pessoal, e o compromisso com uma ordem social justa, resultante da vivência autêntica desta mesma fé cristã. Este mundanismo espiritual, portanto, pode produzir misturas nefastas e enganosas entre o que, de fato, é fé cristã marcando a cultura, e o que está na contramão da mais genuína espiritualidade cristã.

A autenticidade da dinâmica da fé cristã não pode ser comparada, nem mesmo visitar as linguagens tão conhecidas das produções típicas de autoajuda, com passagens por outros tipos de crenças como os traços remanescentes da filosofia da “nova era”- presentes no urbano contemporâneo e envolvidos em um processo de elaboração de uma nova cultura.

Assim, a proposta da dinâmica cristã, nesse mesmo contexto, não permite e não se ajusta ao que sincreticamente é criado para atender aos anseios humanos e com adaptações cômodas em vista do mero bem-estar pessoal. Um exemplo disto é a ideia, imposta pela permissividade, que parte do princípio de que toda norma compromete a autonomia e a liberdade.

Não menos atenção merece o secularismo que vai reduzindo a fé e a até a missão da Igreja ao âmbito privado e íntimo, fazendo com que sejam vistos com naturalidade os horrorosos processos de desumanização, resultado das relações sociais e políticas que deterioram, por vezes, provocando situações irreversíveis.

Sendo assim, o anúncio do Evangelho não pode ser desvirtuado a ponto de causar sombras na transcendência enquanto compreensão e dinâmica vivencial que abre o ser humano à solidariedade, ao sentido de sua oferta. Que qualifica sua cidadania civil com os princípios de quem vive o Reino de Deus em seu cotidiano, movido pela certeza de estar a caminho de uma vida que está para além do tempo e da história.

É hora de cuidar para que certas influências da cultura globalizada, aquela da primazia do bem-estar pessoal, da idolatria ao dinheiro e da criação de guetos para usufruto descomprometido de forças institucionais, não desfigurem o que é próprio da fé cristã em sua força libertária e transformadora.

O Papa Francisco aponta que a fé cristã, vivida e respeitada, proporciona a descoberta e a transmissão da mística de vivermos juntos, de nos misturarmos, nos encontrarmos, darmos o braço uns aos outros, nos apoiarmos e participarmos desta maré que, embora caótica, pode transformar-se em verdadeira fraternidade, caravana solidária, peregrinação sagrada. O ganho será a autenticidade de uma cultura marcada pela fé.
 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte