Artigo de dom walmor

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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

A cada um dos prefeitos recém-empossados dos 853 municípios de Minas Gerais, dirigimos um cordial convite. Convidamos os prefeitos para que visitem o Santuário Estadual Nossa Senhora da Piedade, no alto da Serra da Piedade. Na casa de clemência e bondade da Senhora da Piedade, padroeira do Estado de Minas Gerais, vivenciem, acompanhados de familiares, secretários, assessores e vereadores, um momento de espiritualidade e de gesto de apreço a um dos mais preciosos patrimônios religiosos, artísticos, culturais e paisagísticos de Minas. Este gesto de apreço e vivência de um significativo momento de oração já é tradição e faz parte da cultura mineira. Gesto que tem sido protagonizado por políticos que fizeram e fazem a história de Minas. 

 

É um ato de fé e piedade que inscreve a compreensão de um mandato recebido, e a seriedade no seu cumprimento, no horizonte mais amplo e para além do partidário ou mesmo da importante função representativa a ser exercida. Um ato de fé e uma reverência à padroeira de Minas configuram oportunidade de testemunho e fecunda uma compreensão política e seus desdobramentos em patamares mais altos do que aqueles da ideologia. Trata-se de uma experiência simples, enriquecida pela beleza singular da magnífica arquitetura divina que é a Serra da Piedade. Um momento para emoldurar a atuação política em compromissos de se lutar e se trabalhar pelo bem comum, com especial atenção aos mais pobres, além de protagonizar, o que é extremamente necessário, o apoio e cuidado com essa herança que precisa e merece ser sempre preservada e defendida dos interesses que estão na contramão, não raras vezes, de sua inteireza e plena integridade. A reitoria do Santuário Nossa Senhora da Piedade aguarda a oportunidade dessa visita e vivência desse momento de espiritualidade e celebração de um importante exercício em cada cidade.

 

Este convite aos prefeitos, com suas equipes de governo, para a visita ao Santuário Nossa Senhora da Piedade, projeta luzes sobre a gravidade do ato de governar. Gravidade porque a responsabilidade é o trabalho, a luta e a garantia do bem comum. Na sociedade desigual, embora de muitas oportunidades, particularmente nessa última década, como é o caso do nosso país, o ato de governar assume características e inscreve exigências muito complexas. Torna-se indispensável uma atuação governamental, nas diversas instâncias e nos diferentes contextos, capaz de respostas mais rápidas.

 

A defasagem na infraestrutura, como se pode lamentavelmente constatar, não suporta mais as morosidades nas decisões, nem as escolhas que pouco depois são esquecidas em detrimentos de outras, causando transtornos e aumentando, como desperdício, os custos de obras, muitas delas abandonadas ou não concluídas, constituindo um abuso de incompetente gerenciamento da coisa pública que corta o coração, e deve incitar uma verdadeira atitude de inconformados com o atual cenário. 

 

A espiritualidade que se convida a experimentar no Santuário Nossa Senhora da Piedade nos ajuda a compreender que governar é também um ato de decidir, sem ficar “amassando barro”. À luz de critérios que possibilitem discernimentos adequados, os valores morais, a estatura espiritual e humanística se inserem como elementos determinantes e se somam à competência técnica e aos procedimentos modernos de gerenciamento.

 

Absolutamente indispensável numa administração exitosa é a atenção aos componentes morais da representação política que consiste no empenho, como ensina a Doutrina Social da Igreja, de compartilhar a sorte do povo e em buscar a solução dos problemas sociais. Portanto, o olhar primeiro de um bom governante é lançado sobre a vida dos mais pobres e dos que precisam mais. Para isso, é necessário compreender a atividade do poder não como um simples cargo ocupado, nem como honra conquistada pela confiança depositada, mas, sobretudo, como serviço. Pensando as necessidades e urgência, sabe-se o quanto e o muito que é preciso fazer nos âmbitos da saúde, transporte, moradia, educação, saneamento e outros.

 

O espírito de serviço requerido no exercício do poder inclui ter paciência, caridade, modéstia, moderação, esforço de partilha. Estas e outras virtudes brotam no coração e na mente pela via indispensável da espiritualidade, sem a qual se corre o risco de perder rumos, oportunidades, objetividade, capacidade de definir prioridades e efetivações oportunas. Indispensável ainda é compreender e agir consciente de que a finalidade do exercício, no executivo, bem como no desempenho da vereança, é o bem comum. O prestígio ou aquisição de vantagens pessoais, ou de favorecimentos, apenas se degringolam em deformações do sistema democrático, em corrupções e outros prejuízos que estão na base dos atrasos e defasagens que lamentavelmente configuram cenários de nossa sociedade.

 

Que o convite para o Santuário Estadual Nossa Senhora da Piedade, a espiritualidade e a consciência de serviço ao povo, qualifiquem o próximo quadriênio nas prefeituras de Minas e do Brasil.

 

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte