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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Escravatura é um vocábulo cuja significação deveria nos remeter ao contexto medieval, na contramão da contemporaneidade com os seus avanços e iluminações. Em um tempo de tantas autonomias e de significativas narrativas de liberdades individuais, de povos e culturas, parece obsoleto falar de luta contra as escravaturas. Aí está o absurdo da obscuridade que contracena com as iluminações deste tempo chamado pós-modernidade. Oportuno é o convite-advertência que o Papa Francisco expressa na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano. O Papa como voz forte da Igreja que não pode abandonar temáticas dessa relevância, recupera o princípio fundamental da consciência cidadã – também da vivência autêntica e sincera da fé: ninguém nasce para ser escravo, todos somos irmãos.

A mensagem do Santo Padre é reforço significativo no horizonte da proposta que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil apresenta, ao convocar a Igreja e ao convidar os homens e mulheres de boa vontade a vivenciar o Ano da Paz. Um período que começou no tempo preparatório para o Natal e contempla o percurso desafiador dos dias deste ano em curso. Um Ano da Paz que alerta para o fato de que as escravaturas estão se multiplicando e, consequentemente, a sociedade paga preços altos. Crescem a violência, a despersonalização e o desvirtuamento dos mais nobres processos da cidadania.

O anseio de fraternidade precisa cotidianamente ser recuperado e alimentado como princípio ético universal, que inspira a conduta humana e, desse modo, configura os indivíduos, o exercício da cidadania e a sociedade. A perda dessa referência fundamental impulsiona rumo à negociação desastrosa da nobreza de ser honesto, respeitador dos direitos e, consequentemente, perde-se a alegria de ser promotor da justiça – um compromisso mais direto e efetivo, principalmente, para com os mais pobres. A exploração generalizada do homem pelo homem tem se tornado – assinala o Papa Francisco – um flagelo, que revela irracionalidades e impõe riscos gravíssimos à tarefa permanente de se tecer relações interpessoais marcadas pelo respeito, justiça e caridade.

Como remédio e reação mais efetiva para esse fenômeno abominável, o Santo Padre convida cada pessoa a buscar uma vivência mais fraterna. Somente assim será possível superar o triste cenário que abrange desde o desrespeito à integridade de uma pessoa, em contexto particular, até o comprometimento sistêmico de grupos. Se seguir na contramão desse caminho, a sociedade continuará a sofrer com a corrupção endêmica que assola os funcionamentos de instituições representativas, particularmente as governamentais. A sociedade brasileira precisa estabelecer um novo pacto ético-moral para se salvar da corrupção e das muitas outras formas de escravaturas contemporâneas, que se fortalecem com a perda de referências fundamentais como o sentido da fraternidade universal.

Buscar, permanentemente, uma vivência mais fraterna é prática que faz prevalecer condutas balizadas no gosto de ser bom e honesto, no aprofundado sentido altruísta de edificar, acima de tudo, o bem de todos. Trata-se de uma verdadeira e operosa mudança cultural. Não basta apenas o aperfeiçoamento dos indispensáveis mecanismos de controle. Há um “chip” ético-moral que precisa ser adotado, urgentemente, pelas pessoas. Somente assim o respeito a funcionamentos, legalidades e direitos não serão simplesmente assuntos das cortes nos seus julgamentos, ou nas dinâmicas de controladorias, mas jeito cidadão de ser em tudo o que se fala e faz.

É nesta trajetória que se coíbe tudo o que é reconhecidamente antiético, mas continua a ser praticado para se levar vantagem, enganar. Práticas que não raramente são compreendidas como ato de inteligência, mas que, em vez disso, aprisionam a sociedade em cenários de escravaturas. É preciso recuperar a vergonha para abominar a sujeição do homem pelo homem, fenômeno contemporâneo, herança de tempos obscuros. Trata-se de uma ferida social. Os diversos tipos de escravização, em nível formal e informal, são verdadeiros atentados contra a dignidade humana. Abrangem as condições insalubres de tantas pessoas, a prostituição, os roubos ao erário, uma lista interminável de abominações. Que a nobre luz do princípio da fraternidade mexa com os brios cidadãos de todos e inspirem um trabalho ferrenho, permanente, contra as escravaturas.
 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte