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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

A falta de líderes com lucidez para ajudar na superação das muitas crises é um peso sobre os ombros de todos. Liderar, na contramão de mandos ou manipulações em prol de interesses próprios, partidários e mesquinhos, exige posturas cidadãs, altruísmo, generosidade e clareza sobre as direções a serem tomadas para promover o bem comum. A carência de líderes autênticos compromete instituições. Não são poucos os segmentos que simplesmente buscam explorar as riquezas e o potencial daquilo que pertence ao povo, sem oferecer a contrapartida necessária à coletividade. Anomalias antropológicas minam a cultura da solidariedade, impedem desdobramentos construtivos e inovadores em benefício de todos.

O que mais se vê é o aumento de conluios e conivências, acordos em favor de interesses abrigados no território da mesquinhez e da indiferença em relação ao bem de todos. Vale analisar o conjunto de ações e os projetos existentes na sociedade brasileira, com atenção especial para a própria cidade, o bairro e a comunidade onde se vive. Constata-se, com frequência, certo marasmo, a inexistência de projetos arrojados com o propósito de atender às necessidades importantes do povo.  É preciso conduzir a cultura para longe da nefasta mediocridade que impera. Hoje, quando alguém faz alarde a respeito de um feito ou de uma obra, desconfia-se de que é uma resposta atendida com décadas de atraso. Para que governantes, administradores e profissionais diversos não fiquem ancorados no estreitamento da mediocridade, é necessária inteligência assertiva e sensibilidade nascida da sabedoria. 

Muitos se contentam com um volume de afazeres e mesmo obras que são “o feijão com arroz” de cada dia. No entanto, o compromisso social de buscar a inovação e a inventividade, em benefício de todos, é um quadro de carência. A preocupação predominante relaciona-se à acumulação de bens, fortalecida pelo medo de não ter. Por isso não há coragem para investir. O receio de perder aprisiona líderes políticos, empresariais, culturais, religiosos na mediocridade de ações e na condição de mantenedores do óbvio. Isso inviabiliza o crescimento e as respostas novas. Se esse aprisionamento é consequência da tensão econômica, política ou de outra ordem qualquer, muito mais se relaciona a uma terrível crise cultural.

As correções precisam ser feitas na raiz. Não bastam transformações pontuais sem gerar nova mentalidade. As tragédias humanas e ambientais, as exigências e a rapidez de mudanças próprias deste terceiro milênio gritam por novas respostas. Oportuna é a interpelação que a Igreja Católica se faz quando se confronta com o binômio “conservação-saída”. Já em 2007, como expressão de inquietações nascidas nas décadas anteriores, o Documento de Aparecida, importante referência da Igreja Católica, destacou determinante exigência: é necessária uma ação missionária que vá além da mera conservação. Logo em seguida, o Papa Francisco marca seu serviço com a convocação para que a Igreja esteja sempre “em saída”, indo ao encontro de todos, para ser capaz de tratar adequadamente os desafios das culturas urbanas.

Assim, tornam-se ainda mais fundamentais a inventividade e a competente leitura dos sinais dos tempos. Essas capacidades são indispensáveis para planejar e conceber, nos dias atuais, experiências com força para regenerar a subjetividade. Constata-se a necessidade de uma verdadeira reformulação, a compreensão adequada e audaciosa de que é preciso trilhar rumos novos. Isso vale para a Igreja, para governos, para o empresariado, formadores de opiniões, todos nos seus exercícios profissionais e na gestão de seus empreendimentos. A exigência é alcançar uma nova cultura, capaz de sensibilizar cada pessoa para reconhecer o próprio valor e se comprometer, de modo nobre, com a defesa do meio ambiente e de suas tradições. É preciso encontrar novas formas de intervenção que não sejam a exploração sem limites dos recursos da sociedade e do meio ambiente.

Minas Gerais tem essências históricas, religiosas e culturais, tradições, experiências, personagens e natureza que merecem, mais do que nunca, um mutirão capitaneado por todos os líderes, orientados por gestos de altruísmo. Essa união é necessária para que sejam possíveis apoios, ações, valorização e investimentos em projetos capazes de consolidar o estado mineiro no lugar que lhe é próprio no cenário nacional. Oportunidades para superar as muitas crises. Isso requer a coragem para viver a dinâmica da “saída”, superando a mera conservação. Eis o caminho para inovar e participar de grandes projetos.

 
 
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
 Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte