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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

A política é assunto que interessa a Igreja Católica em sua missão, em seu caminho de evangelização. É também razão intrínseca da existência dos partidos políticos. Contudo, o tratamento dado à política, a partir da fé, guarda nítidas diferenças e distinções quando se compara com a abordagem e as práticas dos partidos. Ora, trata-se de crivos com confluências em muitos pontos, é verdade, porém, essencialmente distintos e, não raras vezes, antagônicos.

A fé é norteada por princípios e valores que constituem um território próprio para a compreensão do fenômeno político. Os partidos se ancoram em configurações ideológicas que, mesmo se revestindo de valores e princípios, têm suas inerentes inconsistências, reveladoras das fragilidades e dos limites que a ideologia impõe à condição partidária. Estas fragilidades permitem, até com facilidade, sua dissolução ou a prospecção de alianças partidárias mesmo quando as respectivas impostações ideológicas guardam leves ou fortes contradições e até negações.

É moralmente abominável um partido se juntar a outro, por este ou aquele interesse, desconsiderando completamente suas diferenças, seus princípios. O interesse a ser atingido na conquista do poder e na garantia do seu exercício não pode ser a prioridade. Assim se faz pelos propósitos de alcançar metas, desconsiderando métodos, promovendo alianças inexplicáveis. O importante deixa de ser a fidelidade aos princípios para se considerar apenas o utilitário, que assegura atingir os objetivos: vencer as eleições e conquistar o poder.

Ética e política são dois termos difíceis de se dissociar – no entanto, se desagregam com muita facilidade no âmbito partidário. Basta ser do interesse do partido e que haja perspectiva da conquista do poder para negociar valores e se abandonar os princípios. Certamente, aqui se pode constatar uma das razões, entre outras, que comprova a fragilidade dos partidos. A fé, como questão de princípio, e não apenas de meio utilizado para alcançar as metas a qualquer custo, não pode, sob pena de decompor-se, jamais negociar valores.

Essa impossibilidade da não-negociação ética, elemento intrínseco da fé cultuada, não permite uma compreensão ou abordagem que venham a colocar no mesmo balaio, sem guardar as distâncias e diferenças, a fé professada na Igreja, os partidos e a política. A Igreja, pela exigência de sua confissão de fé, não pode abrir mão desse princípio sob pena de tornar-se partidária e perder sua força própria, advinda de valores e princípios que a definem.

O poder político não é simplesmente algo que se conquista e se exerce segundo critérios próprios de grupos ou indivíduos. Por isso, é imprescindível a referência a uma moral – ancorada em princípios éticos consistentes – para julgar este poder. Essas considerações conceituais que podem parecer muito abstratas, porquanto o são, remetem à discussão recorrente quanto à posição da Igreja Católica. A posição partidária é própria e esperada no exercício da cidadania de cada indivíduo, quando vota, por exemplo. O eleitor escolhe nomes, muitas vezes independentemente do partido e de suas configurações ideológicas. A Igreja respeita esta liberdade e autonomia e as incentiva. Contudo, a Igreja não pode abandonar sua trincheira ética e sua adesão irrenunciável a valores e princípios morais. A partir dessa plataforma a Igreja influencia, define rumos, forma consciências, participa na definição de resultados. A Igreja não pode trocar o discurso produzido no bojo da ética e da moral por aquele feito simplesmente no âmbito partidário. Este tem sua importância e metas a serem alcançadas. Há quem pense que o discurso partidário seja mais forte e eficaz do que aquele que é produzido a partir de valores e princípios. Resultado de configuração obsoleta que considera o discurso partidário persuasivo a partir de promessas variadas e das ladainhas repetitivas sobre o que se fez ou o que será feito, ou ainda o espúrio recurso de candidatos que se alfinetam.

O discurso partidário na campanha eleitoral, por isso mesmo, não toca os grandes temas, como as reformas do Estado, a reforma tributária, a agrária e outras. O resultado é uma conversa repetitiva, com esterilidades pela impossibilidade de realização do quanto se promete. A força política e o discurso da Igreja não são partidários. A Igreja delineia rumos e critérios para as escolhas, sem se confundir com partidos e suas campanhas eleitoreiras.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte