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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Exortando especialmente as nações ricas, o Papa Bento XVI bate sempre na tecla de que é imprescindível contemplar valores éticos nas medidas de superação da crise econômica. Esses mesmos critérios também devem ser adotados nas definições de prioridades e estratégias de funcionamento da economia. Sua Carta Encíclica Caridade na Verdade, de 7 de julho de 2009, é um tratado que argumenta o sentido e as razões de um compromisso com o desenvolvimento humano integral. 

A luminosidade desta compreensão vem, incontestavelmente, da força da fé ressoando na política, entendida como exercício de cidadania, respeito à justiça, promoção dos direitos e guardiã do bem comum. O desenvolvimento humano integral só é bem entendido e praticado quando fundado na verdade e na caridade. A palavra de Deus tem propriedades singulares para iluminar e fecundar os temas sociopolíticos, econômicos e tecnológicos.
 
Neste sentido, a Doutrina Social da Igreja Católica tem embasamentos determinantes na vivência da cidadania e nos exercícios políticos de execução e legislação. O humanismo cristão é, portanto, uma contribuição que precisa ser conhecida e praticada para favorecer as metas de um desenvolvimento sustentável no lugar de um processo depredador que acaba excluindo Deus. É grande o risco dessa tendência, ou prática da exclusão de Deus, na consideração das realidades sociais e políticas. 
 
A consequência desse caminho é um horizonte estreito e sempre sob névoas. Só o amor alarga horizontes e fecunda os critérios importantes na definição de prioridades e, particularmente, na consideração dos mais pobres e dos excluídos desta terra. A fé que precisa ressoar na política é a vivência do amor. Na sua Carta Encíclica, o Papa Bento XVI sublinha que o amor-caridade impele as pessoas a se comprometerem com generosidade e coragem, no campo da justiça e da paz. Esse amor tem força extraordinária de comprometimento e de lucidez na compreensão e na prática do bem porque tem origem em Deus. 
 
A revelação plena do enraizamento amoroso de Deus se dá em Jesus Cristo, aquele que testemunhou com a própria vida a caridade na verdade. Não se pode pretender encontrar a verdade sobre si e vivenciar uma plena adesão a esta verdade para ser livre. Neste sentido, compreende-se que a defesa e adesão à verdade é uma nobilíssima vivência da caridade. A caridade é tudo, recordando que “Deus é amor”. E não se pode exclui-la dos âmbitos social, político, cultural, jurídico e econômico, sob o risco de prejuízos irreparáveis. A caridade supera a justiça porque quem ama doa-se, e alarga a medida da justiça. Enquanto esta exige que se dê o que é de direito, a caridade é a capacidade de dar, generosamente, do que é seu. Quem ama o outro com caridade será justo para com ele. Por isso, a justiça deve ser inseparável da caridade, que é maior do que aquela. O desafio de amar pela força moral advinda da vivência autêntica da fé explicita a exigência de que amar é querer o bem do outro, trabalhar por ele e pelo bem comum. O bem comum, portanto, é exigência da justiça e da caridade. 
 
Vale ressaltar que a Igreja Católica não tem soluções técnicas, como não pretende imiscuir-se nas políticas dos Estados, respeitando a laicidade que têm. Mas, a Igreja tem uma missão a cumprir, e não pode, absolutamente, abrir mão ou ser omissa em favor de uma sociedade mais justa e solidária, comprometida com o ser humano e sua dignidade. Compreende-se a razão dessa posição, pois a Igreja tem a tarefa fundamental, e diária, de acompanhar e indicar o caminho da caridade na verdade. Ao realizar essa tarefa não mistura questões próprias da laicidade do Estado, mas fecunda uma compreensão que o Estado não pode prescindir, a visão de desenvolvimento humano integral. Ora, o Estado precisa avaliar-se permanentemente quanto ao seu poder e seu papel. A fé, pois, tem uma contribuição importante frente aos processos que mostram o crescimento da riqueza mundial e o respectivo aumento da desigualdade; a consideração da corrupção e da ilegalidade, e os desrespeitos aos direitos humanos.
 
É óbvio que a fé tem que ressoar na política, bastando pensar o desafio de preservação e respeito que é a valorização da pessoa humana na sua integridade. Assim, a fé tem iluminação para as mais diferentes realidades, evocando e remetendo a valores próprios e determinantes na fraternidade que há de fecundar o entendimento do desenvolvimento. Quando se pensa o desenvolvimento integral, fruto da ação política que determina rumos e escolhas de prioridades, remete ao sentido e configuração de direitos e deveres. À luz da fé, sua vivência e o lidar com seus valores têm uma contribuição importante. Em jogo está o respeito à vida humana, em todas as suas etapas, comprovando que há sempre ganhos quando a fé ressoa na política.
 
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte