Você está em:

Na década de 1960, a Igreja no Brasil conheceu vibrante atividade social de jovens da Ação Católica universitária, estudantil e operária. Viviam-se anos de turbulência política que anteciparam o Golpe Militar de 1964. Com regime miliar, caiu sobre tal pastoral juvenil o silêncio da repressão. A dimensão social arrefeceu bastante.

 

O voluntariado vem ao encontro desse viés social esquecido ou relegado ao plano secundário. Ele responde às expectativas da Igreja. De um lado, existem ressonâncias do Vaticano II que valorizou o engajamento dos leigos. Logo no início do Decreto sobre os leigos o texto diz enfaticamente: “O sagrado Concílio, desejando tornar mais intensa a atividade apostólica do Povo de Deus, volta-se com muito empenho para os cristãos leigos, cujas funções próprias e indispensáveis na missão da Igreja já em outros lugares recordou”.

 

Noutro momento, afirma a importância do diálogo com o mundo, sobretudo na Constituição pastoral Gaudium et spes. Unindo os dois polos temos a fonte conciliar do voluntariado.

 

No horizonte de todos, está o grito ético pela justiça, pelo respeito à dignidade de cada pessoa que sofre. Motivação suficiente para tocar o coração de milhares de jovens em todo o mundo.

A inspiração imediata vem da conjuntura social do mundo atual. Vivemos os mais terríveis contrastes. Nos países ricos, as fortunas crescem gigantescamente. Basta ver o exemplo dos Estados Unidos, onde  400 pessoas faturam mais que a metade dos habitantes do país. E o salário dos mais ricos cresceu três vezes mais nas últimas décadas.

 

As consequências aparecem no crescimento vultoso das camadas pobres, carentes. Se isso acontece nas metrópoles, muito pior ainda nos países e continentes da periferia do capitalismo.

 

Cidadãos, especialmente jovens, de regiões da abundância se comovem diante de tanta miséria e sofrimento. Organizam ações solidárias e dedicam tempo a tais tarefas. O voluntariado consiste precisamente nessa iniciativa.

 

Dois tipos de motivações movem os voluntários: a ética e a religiosa. Elas não se opõem. Articulam-se no caso do voluntariado no interior da Igreja Católica. No horizonte de todos, está o grito ético pela justiça, pelo respeito à dignidade de cada pessoa que sofre. Motivação suficiente para tocar o coração de milhares de jovens em todo o mundo.

 

Os cristãos vivenciam motivação ulterior de fé. Ressoa-lhes a frase de Jesus: “Em verdade vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25,40).”

 

Só a ética já tem força suficiente para provocar o voluntariado social. A ética e a fé cristã somam-se e reforçam tal experiência, dando-lhe a beleza de se praticar o núcleo fundamental do Cristianismo: “Deus é amor” (1Jo 4, 8). E o mandamento que recebemos de Deus soa: “o que ama a Deus, ama também seu irmão” (1Jo 4, 21). Aí está o segredo último do voluntariado na Igreja: a unidade e a identidade do amor a Deus e ao irmão, especialmente ao mais necessitado.

 
Pe. João Batista Libanio
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)