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Voltar ao fogo do primeiro amor: um desafio dos missionários

 

 

Nesta maravilhosa peregrinação que é a nossa história pessoal, Maria chama o missionário a partilhar um caminho. É o desafio pendente de cada missionário se tornar a inflamar no fogo. No Apocaplise, no capítulo 2, encontra-se uma crítica do “vidente de Patmos” à Igreja de Éfeso:

“Conheço as tuas obras, os teus trabalhos e a tua constância… Sei que tens constância e que sofreste muito pelo meu Nome sem desfalecer. Mas devo repreender-te por teres deixado esfriar o primeiro amor”.

Para que esse amor não esfrie, o missionário deve passar as estações do seu amor com Maria e vice-versa. Chamaremos a estas estações: atração, decisão, vivência, projeção e plenitude de amor.

Primeira estação: A atração do amor

 

Maria coloca o seu olhar no coração do missionário e diz-lhe: “Preciso
de ti, és importante
para mim”

Há na história de todo o missionário um momento em que sentiu que alguém o chamava e convocava. A palavra vocação vem do latim – “vocare” – que significa chamamento. O missionário vive da mística deste chamamento. O chamamento chega através de pessoas: outra missionária ou missionário, alguém que o convida, um pároco, uma aparente causa fortuita. Através de todas estas realidades Maria atrai o missionário.

Poderíamos perguntar-nos pela causa do chamamento. Porque me chamou Ela a mim? Não há resposta para esta pergunta. É o mistério do amor: a única explicação é o seu carinho. Maria coloca o seu olhar no coração do missionário e diz-lhe: “Preciso de ti, és importante para mim”.

Desta realidade surgem sentimentos que irradiam luz para o coração: gratidão e alegria. “Obrigada Mãe, pela tua eleição”. O coração expressa assim a sua alegria.

Segunda estação: A decisão pelo amor

 

O segundo direito do peregrino é deixar-se moldar por Maria
Ela transforma o coração de pedra em coração de carne, o egoísmo em generosidade, o ódio em amor

Da atração surge a decisão. Decidir-se é optar, é fazer uma escolha. O missionário opta pela Mater. A razão é que experimentou a preferência de Maria. Isto traz, como toda a decisão na vida, consequências lógicas. Eu decido-me por Ela e Ela por mim. É um pacto, uma aliança, com direitos e deveres.

Os direitos do missionário são três: experimentar um lugar especial no coração da Mater. É sentir que Nela se encontra um lar espiritual, a casa, um lugar interior. É o colo materno que aquece e dá segurança. O missionário que se compromete com Maria, experimenta Nela “a rocha”. É um símbolo bonito: rocha é o que nos permite levantar a casa sobre algo seguro e firme. Recordamos a passagem do evangelho: pode-se edificar uma casa sobre areia ou sobre rocha. De acordo com isso, ela ficará de pé ou cairá quando vierem os ventos e as chuvas. A casa é um símbolo da vida. Posso edificar a casa da minha vida sobre areia – coisas superficiais, o dinheiro, o poder, as relações – ou sobre rocha: a palavra, o amor de Deus, a fidelidade à sua pessoa.

O segundo direito do peregrino é deixar-se moldar por Maria. Ela transforma, no dizer do profeta, o coração de pedra em coração de carne, o egoísmo em generosidade, o ódio em amor, etc.

E um terceiro direito tem o missionário: saber que a sua vida se amplifica e se torna fecunda. Que bonito é saber que se tem uma missão, que se pode plasmar noutros o que se recebeu com tanta generosidade!

Os deveres do missionário centram-se na fidelidade ao amor: amá-la, expressar-lhe a alegria do seu chamamento e assumi-lo com responsabilidade. Não há outro dever maior do que comprometer a vida no amor: confiar Nela, visitá-la no Santuário, sentir que somos, como dizia João Pozzobon, uma flauta que a Mater toca e de onde sai a sua mensagem, a sua melodia de graça e de vida.

Terceira estação: A vivência no amor

A relação do missionário com Maria cria um vínculo, uma vivência de aliança. Conviver é viver com Ela. É a comunhão com Ela, é partilhar as três experiências existenciais:

a. Partilham-se as alegrias. As experiências de “Tabor”. Os momentos de gozo e plenitude. Partilhar com a Mãe as alegrias é multiplicá-las. Também partilhamos os êxitos, as boas ações que fazemos, as ofertas que a Campanha nos dá, as pessoas que se abrem à mensagem e as experiências gratificantes do amor.

b. Mas partilhamos também a cruz, os sofrimentos. Nem tudo será alegria, teremos também experiências de limitação, deceções, desilusões. Se as partilharmos com a Mater serão mais suportáveis. Assumiremos melhor, a doença, o fracasso, o desencanto.

c. Poderemos finalmente ter momentos para partilhar as coisas simples e pequenas do dia-a-dia. As experiências de amor sem sobressaltos, nem grande euforia ou escuridão da alma. São as “experiências nazarenas”, aquelas de Maria na sua casa de Nazaré, tão simples, tão quotidianas, mas todas cheias de amor. Só o amor faz grandes as coisas pequenas.

 

É a ternura do filho pela  mãe que se expressa no que podemos dar aos outros
Ela recompensa o coração do filho que faz algo pelos  irmãos

O missionário vai tecendo este vínculo com Maria. Vai unindo a rede que sustém a sua vida e as suas atividades. Isto chama-se, segundo o P. Kentenich, tecer vínculos. Eles são o mais bonito e delicado na vida do Homem. Há que cultivar estes vínculos como se cultiva o fogo do lar nas horas frias do Inverno.

Como fazê-lo? Como se tecem os vínculos entre duas pessoas que se amam. Não são coisas grandes mas simples, cheias de significado e força. Vejamos algumas destas ações que cultivam o vínculo:

* Olhá-la: observar fixamente e longamente a imagem da Mater.

* Falar-lhe: falar à Mater das nossas preocupações ou alegrias.

* Escutá-la: porque Ela fala e dá-nos sempre uma resposta. Maria não é muda: como uma boa mulher e mãe, sabe falar e dar conselhos…

* Acariciá-la, no sentido psicológico. Dar-lhe pequenas ofertas. Procurar a sua aprovação em tudo o que fazemos. É a ternura do filho pela sua mãe que se expressa no que podemos dar aos outros. Ela recompensa o coração do filho que faz algo pelos seus irmãos.

* Decidir com Ela: consultá-la quando se tem que tomar uma decisão importante. Decidimos sempre melhor quando a consultamos…

* Partilhar com a Mater o apostolado: o que realizamos. Desta forma não recolhemos só para nós os êxitos nem os fracassos.

Quarta estação: A projeção do amor

O amor é difuso, disse S. Tomás. O amor, se for verdadeiro, é projetado e dá fruto. Se vivermos no amor – e o cultivarmos – daremos frutos. É a consequência da permanência: “Eu sou a videira verdadeira, o meu Pai é o agricultor e vós sois os ramos. Se permanecerem em mim dareis muito fruto”. Se permanecermos em Maria, daremos muito fruto.

 

Todos formamos uma grande família de missionários e reconhecemos que estamos unidos na grande rede da solidariedade

Os frutos do missionário têm a ver com o “Reino Mariano do Pai”. O serviço e a entrega vão conquistando corações, gente que se une ao coração de Maria. Ninguém missiona sozinho. Todos formamos uma grande família de missionários e sabemos que pertencemos a uma grande rede de solidariedade.

Esses frutos, devemos compartilhar com os outros missionários. Porque essa partilha alimenta o fogo e mantém ardendo o primeiro amor.  Daí a importância do vínculo com outros missionários.  Ninguém missiona sozinho.  Todos formamos uma grande família de missionários e reconhecemos que estamos unidos na grande rede da solidariedade.

Quinta estação: A plenitude

É o prémio da entrega, é a coroa do amor. Todas as ações são recompensadas. Se até um copo de água é avaliado no céu, quanto mais o que é feito pelo missionário. A eternidade será o prémio aos gestos de serviço que fazemos: “No final da vida, seremos julgados pelo amor” (João da Cruz).

Para o P. Kentenich, a plenitude tinha rasgos de “semelhança” com Maria. Parecer-se com a Virgem. É a realização da jaculatória: “Maria que quem me veja, te veja a ti”. Podemos esperar algo maior? É a semelhança com Maria que faz do missionário uma missão viva. Não levamos apenas a Mãe Peregrina, levamo-nos a nós mesmos na imagem. As pessoas não a querem receber só a Ela: querem os missionários nessa imagem presente na imagem viva de Maria.

 

Plenitude não é magia, mas luz, fortaleza e alegria
É a mudança do coração que se faz no amor mais verdadeiro, alegre, bondoso, semelhante ao dela e ao de Cristo

Um sinal de plenitude é a alegria do serviço. Outro fruto é a paz no coração, a serenidade da ação bem feita. É chegar à noite com o cansaço do caminho, talvez com os pés cheios de pó, mas com o coração radiante. É dormir em paz, no colo da Mãe. É reconquistar o paraíso perdido. Há algo, ou seja, há muito de felicidade: “flashes” de felicidade.

Isto não significa que por vezes não nos custe a entrega. Aparecerão obstáculos, cansaço, desilusão, incompetência no cargo, crise pessoal ou preguiça. Em todos estes casos podemos pensar que o amor é provado nas dificuldades. Só a dor aprimora a entrega. Podemos rezar com o Padre Kentenich no Rumo ao Céu: Mãe, “chegou a hora do teu amor”. Hora de confiar, de ter paciência, de ser humilde de rezar e sofrer por causa de Maria.

Plenitude não é magia, mas luz, fortaleza e alegria. É a mudança do coração que se faz no amor mais verdadeiro, alegre, bondoso, mais semelhante ao dela e ao de Cristo. Maria ao amar, gera uma ordem santa, a harmonia. É o “caráter de aparição”: o caminho para o céu. Nessa plenitude, o missionário escuta a voz da Amada, Maria: “Não basta querer um mundo melhor há que fazer algo por ele. Têm agora uma grande oportunidade”. Aqui estou, Mãe, “para fazer a tua vontade”…

 

Pe. Guillermo Carmona