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Vocação ao Ministério Ordenado

O resíduo embrionário de uma vocação ao ministério ordenado na Igreja Católica é, em primeiro lugar, colhido pela alegria da fé. Sua percepção clarificada só se alcança com a percepção também nítida das fragilidades humanas quando, num ato de fé, alguém se coloca gratuita e generosamente à serviço da Palavra de Deus para o exercício de uma pastoral, no contexto da comunidade eclesial.

Trata-se, portanto, da original posse da graça. Algo próprio do princípio norteador da primeira movimentação espiritual rumo à missão. De fato, do mesmo modo como aconteceu no início do encontro de Jesus com seus primeiros discípulos, quando o Senhor se aproximou deles e os chamou a uma itinerância marcada pela simplicidade, coragem e serviço (Lc 10,1-11), acontece a mesma experiência para a atual realidade do discípulo missionário do Senhor. É simples o convite que Ele nos faz, como experimentou Pedro, Tiago e João. Passando pela praia, Jesus viu os irmãos no seu trabalho de pescaria. Aproximou-se deles e os convidou ao seguimento. Depois, os enviou, dois a dois… (Mc 1,16-20; 3,13-19). O próprio Mestre caminhara junto com eles. Simples assim.

Mas, que conteúdo tem a exigência de simplicidade no seguimento do Senhor? Claro, não se trata de uma percepção imediata, embora existam tantas nuances que induzam à busca de uma satisfação para o desejo crescente do coração. Ocorre, sim, o surgimento da necessidade de um caminho a ser percorrido. Inicia-se uma procura pelas razões para descobrir este núcleo existencial que provoca o íntimo do ser, deixando-o desassossegado. Na verdade, evoca-se no íntimo um primeiro discernimento, vencendo a timidez, o medo e tantas outras resistências interpostas entre o coração e o impulso inicial do desabrochar de uma autêntica vocação.
 

A vocação emerge para estar a serviço de Deus. Não existem meios para servir a Ele se não for pelo serviço ao outro

Noutra palavra, o que acontece é um fenômeno muito natural, revelador da sobrenaturalidade do dom da fé, ou seja, numa inusitada e imprevista fração de segundo, o Senhor alcança o coração daquele que Ele quer. E ali, naquela “periferia existencial” – conforme palavras do Papa Francisco – inaugura a possibilidade de uma abertura interior do ser, necessária para a penetração da sua Luz. É uma experiência do Amor de Nosso Senhor que, derramando seu Santo Espírito, cria oportunidade para o acolhimento da Sua Palavra Divina, qual semente caindo em terreno fofo, adubado e regado em busca de um plantio exitoso.

O investimento de energia para escutar, com qualidade, a Palavra de Deus e experimentar a força interpeladora do novo Amor que atrai, transforma-se numa paixão irrenunciável. Impele o coração a transpirar exigências afetivas, desafiando a dinâmica da liberdade a ponto de capacitá-la para novas e distintas percepções da vontade de Deus para a própria vida.

Há um processo constituído de sínteses muito provisórias, que resultam na cotidiana resposta definitiva. Por isso, tudo se transforma em novidade, no presente de cada momento. O ver, o pensar e o agir convertem-se, já ali, embrionariamente, em testemunho de uma experiência nova de encontro. Tal acontecimento passa a ser referencial, sustentador do início de uma resposta, cujo sabor contém o teor de sempre maior definitividade.

Em direta consonância e como desdobramento, aflora imediatamente a dimensão da perseverança. A coragem como força essencial da fé, inspirada pela Palavra de Deus: “Não tenhas medo… pois estou contigo para defender-te” (Jr 1,8) assume o lugar sentinela da fé. Desta forma, a acolhida ao convite de Deus (vocação) para o serviço missionário do Reino, tendo como bases a humildade e a sinceridade, não ignora, nem prescinde da percepção das limitações. Ao contrário e surpreendentemente, vê-se a desproporção entre o chamado do Senhor e a resposta humana, de tal forma que, sem a força de Deus e do Espírito Santo nada se pode fazer (“sem mim, nada podeis fazer!”Jo 15,5). Somente inserido nele e nutrido pela sua graça, pode-se vencer o medo e experimentar a fecundidade da existência que não está na capacidade humana, mas na liberdade e na leveza do Espírito. É Ele quem impulsiona a existência individual e eclesial para realizar – por meio das fragilidades humanas – a Obra da Redenção do mundo inteiro.

 

Servir a Deus quer dizer deixar-se consumir pelo outro por amor a Deus. Implica experimentar riscos e se deliciar com as descobertas. É a conversão do coração.

A vocação emerge para estar a serviço de Deus. E o caminho para servi-lo é dedicar-se aos irmãos (inclusive orar pelos outros). O Senhor mesmo disse: “Quem der um copo d’água a um desses pequeninos, por ser meu discípulo, não ficará sem receber sua recompensa” (Mt 10,42). Em oura situação, afirmou que “prova de amor maior não há que dar a vida pelo irmão” (Jo 13,1-15). Conclui-se, portanto, que servir a Deus quer dizer deixar-se consumir pelo outro, por amor a Deus. Não é um romance; é uma aventura. Implica experimentar riscos e se deliciar com as descobertas. É conversão do coração.

Na verdade, exige mesmo renunciar ao egoísmo, ao narcisismo, às recompensas neste mundo e, consequentemente, também às seguranças, conforme afirmam os  Evangelhos: “Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz de cada dia e siga-me!” (Mc 8,34-35); ou “quem quiser salvar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim, a encontrará” (Mt 16,25).Trata-se, portanto, de martírio – ou seja, uma radicalidade que está na raiz do chamado, pois a iniciativa amorosa de Deus que nos atrair para Ele inclui, em gérmen, todas as potencialidade que precisarão florescer e amadurecer, qual resposta fiel e definitiva de santidade.
Assim, a pergunta pela recuperação da sensibilidade da vocação torna-se impositiva: que lugar tem ocupado em nosso coração a urgência da fecundidade da nossa ação evangelizadora, carente de testemunhos que arrastem tantos outros para Cristo?

 

Pe. Nivaldo dos Santos Ferreira
Reitor do Seminário Coração Eucarístico de Jesus
Professor de Teologia do Ministério Ordenado –Instituto Dom João Rezende Costa
Pároco da Paróquia Santíssima Trindade – Gutierrez