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Viver é perigoso, dizia Guimarães Rosa. Mas, mesmo em meio a todos os perigos que enfrentamos, notamos também que a vida é bela. Já cantava Gonzaguinha: “Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita”.

Nós não pedimos pra nascer, mas, já que a vida nos foi dada, o importante é procurar viver bem e ser feliz. Estamos sempre buscando a felicidade: a nossa e a de todas as pessoas. Lutamos para vencer as tristezas, os problemas, sempre em busca da felicidade. Mas ser feliz não é não ter problemas. É estar de bem com a vida: alegre, tranqüilo, com o coração em paz, mesmo com os problemas que a vida tem. Se a gente for esperar vencer todos os problemas para ser feliz, nunca vamos alcançar a felicidade. É possível ser feliz, mesmo em meio a uma dose de dificuldades e aborrecimentos. É só abrir bem os olhos para ver como a vida é bela, apesar dos sofrimentos e nos sofrimentos que ela oferece.

A tarefa de ajudar a ser feliz faz parte também da missão catequética. O Evangelho de Jesus Cristo, a boa-nova que ele anunciou, traz força para viver. Ela revigora a gente e nos capacita para enfrentar a vida e os problemas que ela nos apresenta. Jesus sempre levou força para todos que dele se aproximaram. Nos relatos bíblicos notamos como as pessoas que se aproximavam de Jesus saíam melhores depois do encontro com ele. Quem estava doente ganhava força para vencer a doença; quem estava cansado ganhava força para continuar a caminhada; quem estava aflito ganhava paz para seu coração; quem estava escravizado pelo mal se libertava dos grilhões pela força de seu amor. Todos que se aproximavam de Jesus redescobriam dentro de si uma energia, um vigor que nem sabiam possuir. É a força do Evangelho, a força do amor de Deus manifestado em Jesus.

 

O Evangelho é força pra viver porque é exatamente no amor infinito de Deus que esta força se encontra. E a prova deste amor é a entrega de seu Filho na Cruz

A evangelização tem então importante missão: ajudar nossa gente a encontrar força pra viver. Essa força não vem da nossa mente, nem da emoção do encontro, mas do próprio Deus que se dá a nós quando nos reunimos em seu nome. É claro que o encontro não dispensa emoções, nem despreza esforço mental para dar as razões da fé… Mas não é de nós mesmos que vem a força da fé. Deus vem ao nosso encontro: ele mesmo nos fortalece; ele se autocomunica a nós e nos interpela, chamando-nos a uma comunhão profunda que restaura nossas forças e nos faz encontrar energia onde nem sabíamos poder existir.

Não cansamos de insistir que é preciso promover o encontro das pessoas com Deus, ou seja, as celebrações e encontros devem criar um clima de amor e confiança que favoreça este encontro. A presença do Ressuscitado, que revigorou tantos seguidores no começo da caminhada cristã, se realiza em cada encontro que fazemos em nome dele. Toda vez que proclamamos sua palavra e nos abrimos para meditá-la e partilhá-la, Deus se faz presente e sua força curadora atua em nós. É por isso que nos sentimos tão bem depois de um momento de oração, de uma celebração, de uma partilha de vida e comunhão com irmãos de fé, de um momento de reflexão e estudo da palavra de Deus. De uma forma misteriosa – que a razão não dá conta de explicar, mas o coração dá conta de sentir – a presença de Deus acontece; a comunhão com ele se realiza e nossas forças voltam ao nosso ser muitas vezes abatido. A Igreja não deve, pois, se contentar em ensinar coisas ou em rezar as orações prescritas. Sua missão vai muito além de mera preparação para Primeira Eucaristia ou doutrinação. Sua principal tarefa é ajudar cada um a descobrir a força do Evangelho em seu coração.

Para que este encontro aconteça, uma boa teologia não pode faltar. Daí a importância de superar de vez a teologia do medo. Quem vai querer se encontrar com um Deus vingativo e castigador que não faz outra coisa senão anotar nossos pecados num estranho livro de vida para ter a lista completa na hora do juízo? Quem vai querer ser amigo de um Deus temperamental e colérico que vinga a raiva da humanidade em seu próprio filho na cruz? Não! O Evangelho é força pra viver porque é exatamente no amor infinito de Deus que esta força se encontra. E a prova deste amor é a entrega de seu Filho na Cruz. O Pai não mandou Jesus só para morrer, nem só para pagar nossos pecados, nem para vingar o mal que se implantara entre nós. A presença de Jesus no mundo é prova concreta de que somos amados – até demais – e que sua força nunca nos há de faltar. E neste amor há uma estranha força que faz viver. Aí, mesmo em meio às tribulações, a gente continua caminhando. Como canta nossa gente nas igrejas: “E ainda se vier noite traiçoeira; se a cruz pesada for, Cristo estará contigo. A vida pode até fazer você chorar, mas Deus te quer sorrindo…”. Por isso, viva a vida!

Solange Maria do Carmo
mestre em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)
 doutora em Catequese pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) 

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