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Virtudes humanas na família

O que são as virtudes humanas? No Catecismo da Igreja Católica encontramos a seguinte definição: “As virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé. Propiciam, assim, facilidade, domínio e alegria para levar uma vida moralmente boa”.

“Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem» (n. 1804). Essas virtudes humanas podem ser exercitadas em todas as ações, em todos os momentos da vida: vivem-se no trabalho e no descanso, no lar, no relacionamento com os outros, enfim, em todos os aspectos da conduta humana. Distinguem-se das virtudes teologais – fé, esperança e caridade – essas estão centradas diretamente em Deus.
 

As virtudes humanas regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé.

O Catecismo da Igreja lembra que todas as virtudes humanas, que são muitas, giram à volta das quatro virtudes cardeais, que são as virtudes-eixo: prudência, justiça, fortaleza e temperança (nn. 1805-1809).

 

Neste texto breve, vamos focalizar apenas alguns traços das virtudes cardeais que todos os pais têm a responsabilidade de praticar, se querem dar o exemplo necessário para a formação dos filhos. Convençam-se de que, sem essas virtudes, o exemplo de fé e religiosidade que se esforçam por dar aos filhos ficará enfraquecido e até poderá ser contraproducente.

 

Alguns traços das virtudes cardeais

Prudência
 

 Pense em como dá segurança e confiança aos filhos o fato de terem pai e mãe sensatos e reflexivos. Que não se assustam facilmente nem perdem a serenidade ainda que apareçam problemas sérios, mas os enfrentam com fé e procuram usar a cabeça, evitando o alarmismo e as reações precipitadas.

Que não vivem distraídos, esquecidos, improvisando a toda a hora, no meio de uma grande confusão. Que não mudam de planos por imprevidência em prepará-los. Que, por falta de ordem, não deixam as coisas para última hora ou para o final do ano. Que não se descuidam de controlar as despesas, as contas e os prazos. Que não precisam, enfim, de ouvir aquelas palavras do Paraíso de Dante: “Siate, cristiani, a muovervi più gravi: non siate come penna ad ogni vento…” (“Cristãos, caminhai com mais ponderação: não sejais qual pena movida por qualquer vento…”).  

Justiça

Da mesma forma, como faz bem aos filhos ter pai e mãe justos, que cumprem o que prometem. Que não se desdizem de levar avante aquele passeio planejado, só porque de repente mudaram de ideia, deixando-se dominar pelo capricho ou pela preguiça.

 

Pai e mãe que não tratam os filhos como números com indicações, conselhos e ordens genéricas iguais para todos, como se o lar fosse uma caixa de soldadinhos de chumbo feitos em série. Que, como pede a justiça, sabiamente tratam desigualmente os filhos desiguais conforme as necessidades materiais, psicológicas e espirituais de cada um.

Logicamente, não por mimo ou preferências injustas. Que repreendem com justiça e prometem um pequeno ou médio castigo – pois castigo grande quase nunca se justifica. Não amolecem, mas cumprem sem deixar de cercar o filho punido da certeza de que é muito amado e só querem o seu bem.
          
Também fazem muito bem aos filhos outras ‘justiças’ da vida cotidiana. Por exemplo, perceberem que os pais não se aproveitam nunca de um troco errado (devolvem ao caixa a diferença), nem dão jeitos para burlar a fiscalização na entrada do cinema, do estádio, do museu, deixando de pagar o ingresso que qualquer pessoa honesta paga; não admitem nunca a mentira como meio para resolver os problemas etc.

 
Fortaleza.

Pense que um clima familiar em que não se ouvem queixas nem reclamações nem gemidos é um exemplo maravilhoso de fortaleza para os filhos. Um lar em que ninguém se julga mártir ou vítima e, por isso, não tem o hábito de reclamar. Em que o pai, exausto, é capaz de ficar brincando com eles, interessando-se pelos seus pequenos dramas ou pelos seus sonhos e alegrias infantis – ou adolescentes.

Tudo isso, com uma naturalidade que não deixa transparecer o cansaço nem os problemas do serviço. E em que a mãe disfarça com um sorriso, após um dia bem duro, que se sente exausta, e não acha que o desgaste a autorize a gritar com os filhos nem a descarregar neles a ‘eletricidade nervosa’. Esses são pais que sempre projetam nos filhos a luz e o calor da generosidade, da paciência e da constância.

Temperança

 

Que os filhos possam dizer até na idade madura e na velhice que o pai e a mãe continuam a iluminar-lhes a vida.

Que grande exemplo dão aos filhos os pais que nunca são vistos, nem dentro nem fora de casa, nem nos dias de trabalho nem na sexta à noite, nem aos domingos e feriados, abusando da comida e da bebida. Pelo contrário, como toca o coração ver uma mãe que habitualmente ‘prefere’ o bife que tem mais nervos e gorduras, ou ver o pai que ‘gosta’ do teatro que a mãe adora, mesmo nos dias em que seu time joga.  
   
E que dizer da temperança na TV e na internet? Alguns pais acham que os filhos são tolos. Em matéria de informática, quase sempre dão um solene ‘chapéu’ nos pais. Descobrem facilmente – pois ainda não aprenderam a viver a virtude da discrição e a controlar a curiosidade – a quantidade de sites inconvenientes que o pai visitou, como se fosse um adolescente descontrolado.

 

E em matéria de humildade, o que Santo Tomás de Aquino situa dentro da temperança? Como se nota a falta de humildade e como faz mal. Por isso, é tão formativo que os filhos percebam que os pais não se deixam arrastar por mesquinharias de suscetibilidade, por mágoas persistentes, por querer ter sempre a última palavra. Que não vejam nunca os pais virando o rosto para ninguém, nem dominados por espírito de superioridade, nem falando com desprezo ou com crítica azeda do cunhado que fez isso ou da tia que fez aquilo…
 
Virtudes humanas! São muitas as que os pais deveriam cultivar, “como lâmpada que brilha em lugar escuro” ( I Pedr 1, 19). Preservar as virtudes e ensiná-las aos filhos – com a força moral que dá o bom exemplo – é um empreendimento árduo, mas é decisivo, e, por isso, deve ser enfrentado e levado a termo pelos pais dia após dia, com a graça de Deus, com muito amor e com esforço constante.

Que os filhos, quando crescerem e forem avançando em anos, possam dizer que nunca se apagou neles a imagem da mãe, a imagem do pai, e que até na idade madura e na velhice o pai e a mãe continuam a iluminar-lhes a vida.


Pe. Francisco Faus,

Doutor em Direito Canônico pela Universidade
 de Santo Tomás de Aquino  (Roma)