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Vida Consagrada: a alegria de dizer sim ao chamado de Deus


 

 

O Ano da Vida Consagrada abriu suas portas em 30 de novembro de 2014, primeiro domingo do Advento. O convite é para entrar nessa casa do chamado e contemplar algo diferente, radical, algo que questiona e ilumina, sinal do Deus Amor.

Muitas serão as ocasiões para celebrar este grande dom. Uma primeira entre todas é a festa da apresentação de Jesus ao Templo: a vela que seguramos nas mãos representa a luz de Cristo que habita os nossos corações e ilumina nossos passos, apontando o caminho… um caminho novo, um “mandamento novo” que o mundo, muitas vezes, não conhece. É o caminho do Amor, o projeto do Evangelho, a descoberta de quem encontra a coragem de deixar tudo e segui-lo!

Com este espírito começamos o mês de fevereiro. E um passo após o outro chegamos a outra data importante: a memória de Nossa Senhora de Lourdes, no dia 11 do mesmo mês. Maria, modelo dos consagrados, primeira consagrada, se apresenta como a padroeira de todos os enfermos. Com ela, nos colocamos diante dos sofrimentos da humanidade.

Talvez não seja por acaso que estas duas comemorações se apresentam a poucos dias de distância uma da outra, quase querendo nos dizer que a Vida Consagrada, chamada a ser sal e luz, sinal do Amor de Deus, ao longo do caminho pode perder seu brilho, sua autenticidade, sua radicalidade, tornando-se quase “enferma”.

Entre outras, é possível individualizar algumas “doenças” espirituais que afetam, muitas vezes, a Vida Consagrada hoje, refletindo-se sobre a relação com Deus, a vida fraterna, a missão e o testemunho.

 

Precisamos cada vez mais assumir nossa atitude profética, pois se estamos neste mundo é pela vontade amorosa e gratuita, de Deus que nos amou, nos ama e nos amará com um amor apaixonado

Uma delas pode ser o aburguesamento. Podemos chamar de aburguesamento aquele processo pelo qual, frequentemente, a mentalidade comercial, consumista que a sociedade oferece, aliás, impõe, penetra nas comunidades religiosas, gerando a imagem de uma Vida Religiosa “gorda”, comodamente sentada num sofá, diante da televisão, ou hipnotizada pela internet, justificando suas atitudes egoístas e “bulímicas” com a afirmação de que hoje a pobreza não seria somente material, mas sim proeminentemente espiritual, escondendo assim incoerências de vida manifestadas por condutas ávidas de quem quer sempre mais.

As propostas que a sociedade apresenta são inúmeras, atrativas e envolventes. A mentalidade comercial tem a capacidade de oferecer produtos “numa bandeja, bons bonitos e baratos”, condicionando o poder que a pessoa tem sobre suas escolhas, movendo-a através da estimulação do desejo na direção do objeto a ser vendido.

Tal mentalidade consumista consegue infiltrar-se também no coração e na vida de muitos religiosos/as, entrando “de gaiata, pela porta de frente, como visita agradável e gostosa”, que, sem o/a religioso/a perceber, transforma-se em vício difícil de ser extirpado.

Há outra “doença” espalhada nas comunidades religiosas hoje. Ela chega disfarçada de santidade, de serviço, de doação: é a atitude empresarial e a generalidade missionária. Os serviços prestados pelas Congregações religiosas nasceram para responder a situações de urgência e necessidades, apelos de uma humanidade sofredora. Ao longo da história, estes serviços (pensamos, por exemplo, hospitais, escolas etc.) foram assumidos pelos órgãos públicos. Diante disso, a identidade de muitos institutos centrados em suas obras começou a vacilar. A diminuição dos membros de muitas famílias religiosas e seu envelhecimento está colocando à prova sua mesma existência. Falta pessoal religioso capacitado para assumir serviços que hoje não podem mais ser levados adiante com os critérios e a “ingenuidade” usados até agora.

O Estado criou uma série de condições e leis restritas e peculiares que acabam sufocando o espírito de caridade pelo qual a obra surgiu e prestou seu serviço ao longo dos séculos e as congregações religiosas, na maioria dos casos, não têm condições para submeter-se às inúmeras jurisdições, obrigatórias do ponto de vista burocrático, para a obra sobreviver. As congregações religiosas, movidas pela exigência de serem competitivas e eficientes, prestando serviço de caridade, com qualidade, investem, portanto, na formação profissional de seus membros, com o risco de torná-los ótimos profissionais, mas religiosos medíocres, escassos de espiritualidade e pobres no testemunho. Para dar conta da burocracia, deixou-se de lado a mística.

Sabemos que qualquer doença tira, pelo menos em parte, o entusiasmo pela vida, e “cobre” a pessoa com uma sombra de tristeza que ás vezes coloca à dura prova a fé. Eis a angústia de muitos corações consagrados, votados a pertencer inteiramente a Cristo, mas totalmente esvaziados de fé e esperança.

Sem dúvida, o fenômeno da perda de fé e a consequente perda de entusiasmo, que na vida religiosa consagrada é assinalada por alguns sintomas, como atitudes de fechamento e apatia, falta de iniciativa e dedicação, escassa assunção de compromissos, progressivo retraimento e perda do gosto pela vivência comunitária e pastoral. É esta uma das principais causas de infidelidade entre os/as religiosos/as.

Outras doenças espirituais são tão contagiosas, que chegam a infetar não somente uma pessoa, mas a comunidade inteira: ninguém se salva destes vírus. Eis a vida comunitária medíocre, soma de vários fatores, limitações não superadas, falta de cuidados nas diversas áreas de amadurecimento da pessoa – e da pessoa consagrada! -cansaço físico e espiritual, perda de sentido, derramados no grande jarro da vida comum.

Por fim, podemos citar a “doença” da infantilização, ou seja, uma regressão na vida da pessoa, que, ao invés de amadurecer e cultivar a integridade pessoal, procurando ser responsável e protagonista de sua vida, percorre o caminho contrário ao crescimento, voltando, em algum estádio, aos comportamentos característicos de criança ou adolescente. Quantos homens e mulheres consagrados revelam-se incapazes de viver uma paternidade e maternidade espiritual, tornando-se, pelo contrário, eternos adolescentes insatisfeitos com a vida, ou criancinhas carentes em busca de compensação!

Conscientes de que “os sãos não necessitam de médico, mas sim os doentes” (Mt 9,12), olhamos, portanto, para Jesus, médico das almas e invoquemos a intercessão de Nossa Senhora de Lourdes sobre a Vida Consagrada.

Então, deixemo-nos sacudir e provocar pelas palavras proféticas do nosso querido Papa Francisco, para reavivar o dom de Deus que está em nós, e retomar nosso caminho com maior entusiasmo, fidelidade e radicalidade: “Que seja sempre verdade aquilo que eu disse uma vez: Onde estão os religiosos, há alegria”. […] Que entre nós não se vejam rostos tristes, pessoas desgostosas e insatisfeitas, porque “um seguimento triste é um triste seguimento” […] Numa sociedade que ostenta o culto da eficiência, da saúde, do sucesso e que marginaliza os pobres e exclui os “perdedores”, podemos testemunhar, através da nossa vida, a verdade destas palavras da Escritura: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12, 10). Bem podemos aplicar à vida consagrada aquilo que escrevi na Exortação apostólica Evangelii Gaudium, citando uma homilia de Bento XVI: “A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração” (n. 14).

“É verdade! A vida consagrada não cresce, se organizarmos belas campanhas vocacionais, mas se as jovens e os jovens que nos encontram se sentirem atraídos por nós, se nos virem homens e mulheres felizes! De igual forma, a eficácia apostólica da vida consagrada não depende da eficiência e da força dos seus meios. É a vossa vida que deve falar, uma vida da qual transparece a alegria e a beleza de viver o Evangelho e seguir a Cristo”.  (Carta Apostólica do Papa para o ano da vida consagrada).

Tanto na vida religiosa consagrada, como também nas famílias e na Igreja de modo geral, nos deparamos com tudo isso que mencionei. Este cenário nos revela que precisamos cada vez mais assumir nossa atitude profética, pois se estamos neste mundo é pela vontade amorosa e gratuita, de Deus que nos amou, nos ama e nos amará com um amor apaixonado.

Aos Jovens eu digo: não tenham medo de deixarem-se vocacionar por Deus e colocar sua vida inteiramente a serviço do Reino. Assim como Ele tem contado comigo, também conta com você!

 

Irmã Débora Damiolini
Irmãs Operárias da Santa Casa de Nazaré.