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Um encontro pessoal com Deus

 

A meditação cristã, ao contrário, tem como finalidade nos redimensionar diante de Deus para que Ele seja o centro de nossa vida, superando a tendência de nos colocar como centro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No mundo empresarial, muitos descobriram a importância da meditação.  O livro “O monge e o executivo”, de James Hunter, evidencia esse interesse e motiva tal prática. Muitos buscam a meditação em vista do autocontrole, do equilíbrio pessoal, para favorecer concentração, para ter mais foco, para atrair o que mentalizam etc. Todas essas motivações tem em vista a nós mesmos e o que queremos alcançar. Revelam nosso eu como centro da vida.

 

A meditação cristã, ao contrário, tem como finalidade nos redimensionar diante de Deus para que Ele seja o centro de nossa vida, superando a tendência de nos colocar como centro. A meditação cristã não é uma parada para pensar em Deus (ato racional), mas para que nós possamos estar com Deus (ato de amor).

 

Entra no íntimo
de tua alma,
afasta tudo de ti,
exceto Deus ou o
que possa ajudar-te
a procura-lo;
fecha a porta
e põe-te
à sua procura

Durante todo ano, por exigência da função, aqueles que ocupam cargos de liderança estabeleceram e perseguiram metas, exigiram desempenho, solicitaram e foram solicitados a apresentar resultados. No final do ano se faz o balanço de tudo. Coincidindo com esse tempo, na liturgia, vivemos o Advento que também nos chama a um balanço, colocando-nos frente ao fim último de nossa vida. O Advento nos prepara para celebrar o nascimento de Cristo, mas também para nosso encontro definitivo com Ele, no final de nossa história.

Se não se consegue meditar todos os dias, pelo menos em momentos importantes  como o que vivemos agora, em que se aproximam o Natal e o novo ano já nos propõe desafios,  é fundamental dedicar um dia, ou parte dele para  um encontro consigo e com  Deus. 

Comecemos aqui. Proponho iniciarmos com o texto de Santo Anselmo (séc.XII).

Desejo de contemplar Deus

“Vamos, coragem, pobre homem! Foge um pouco de tuas ocupações. Esconde-te um instante do tumulto de teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te absorvem e livra-te das preocupações que te afligem. Dá um pouco de tempo a Deus e repousa nele. Entra no íntimo de tua alma, afasta tudo de ti, exceto Deus ou o que possa ajudar-te a procura-lo; fecha a porta e põe-te à sua procura. Agora fala, meu coração, abre-te e diz a Deus: Busco a vossa face; Senhor, é a vossa face que eu procuro (Sl 26,8).” (Texto completo na Liturgia das Horas, sexta feira da 1ª semana do Advento).

O risco de nos desviar do essencial

•    Em vista de nossa meditação, escolhi um texto bíblico que nos coloca diante do sentido último de nossa vida. Vamos ler: Lc 12, 13-21.33-34
•    Ocupados com nossas obrigações diárias, que nos absorvem e exigem nossa atenção, corremos o risco de perder de vista o que é o essencial.
•    Jesus estava falando à multidão e a seus discípulos. Imediatamente antes do trecho que ouvimos, Jesus falava do amor pessoal de Deus por nós. Interrompendo-o, alguém que pensava só em si, pediu: “Faça com que meu irmão reparta a herança comigo”.
•    Isso deu ocasião para Jesus fazer a advertência: “Cuidado com todo tipo de ganância”. A ganância de obter os títulos almejados, a ganância do reconhecimento da competência, a ganância de bater todas as metas, a ganância de ser eficiente, a ganancia de conseguir tudo o que se quer, etc. O autor do livro do Eclesiastes diria: “Vaidade das vaidades ou ilusão das ilusões”, pois a vida não consiste em ter. Não é isso o mais importante. Não é isso que preenche a vida de sentido. Não é isso que faz de nós pessoas melhores ou mais realizadas.

Sua vida será tirada

•    Logo depois de advertir sobre a ganância, Jesus conta a parábola: “a terra de um homem rico deu uma grande colheita”… Pela gestão que teve, esse homem rico, certamente bateu todas as metas, conduziu seus negócios a ponto de alcançar o máximo rendimento possível. Foi muito eficiente em seus negócios! Agora seria só desfrutar de seu sucesso.

•    Mas, da parte de Deus, vem a palavra desconcertante: “Tolo, ainda nesta noite, tua vida será tirada. Para quem ficará o que acumulaste?”. Poderíamos estender as perguntas: O que será de todo teu esforço? de todo tempo dedicado excessivamente ao trabalho? de toda noite não dormida? de todas as horas de trabalho estendidas? de toda atenção de que a família ficou privada? de todo sacrifício em vista só dos afazeres profissionais?

•    No altar de nossa eficiência, da competência ou da profissão sacrificamos coisas muito importantes, como: atenção a Deus, vivência religiosa, atenção ao próximo e à família, sacrificamos cordialidade, amabilidade, descanso, cuidado com a saúde, etc.

•    De que adianta alcançar tudo o que almejamos, mas perder o que é mais importante? Mais importante que as conquistas profissionais pretendidas é a vida em si; vida que é dom de Deus. E o que dá sentido à vida e nos realiza como pessoa é o amor; amor a Deus e amor ao próximo. No amor Jesus resumiu todo seu ensinamento, chamando nossa atenção para o que há de mais importante na vida.


Refletir sobre a morte nos faz relativizar práticas da vida

•    Interessante como a reflexão sobre a morte nos faz relativizar e redimensionar coisas que consideramos muito importante na vida! A reflexão sobre a morte nos assusta porque ela põe em cheque o valor daquilo que temos e fazemos.

•    Um médico chamado Roberto Shinyashiki, trabalhando em UTI e acompanhando doentes terminais, faz considerações interessantes nesse sentido. Ele observa que nessas situações terminais ninguém se arrepende por não ter alcançado metas, por não ter obtido esse ou aquele título, por não ter aplicado melhor os recursos que dispunha etc. As pessoas se arrependem por não terem perdoado, por não terem dedicado mais amor ou a devida atenção ao outro, por não terem sido generosas, por não terem feito os outros felizes.  Numa palavra: as pessoas se arrependem por não terem amado mais.

•    É claro que é importante trabalhar empenhadamente e ser eficiente no que se faz; isso é profissionalismo. Mas não podemos ser amadores na vida! É indispensável valorizar e tratar bem aqueles que trabalham ou convivem conosco; dedicar atenção aos familiares; não ignorar Deus nem nossos compromissos cristãos. Importante é chegar em casa depois de um dia pesado de trabalho e valorizar o desenho de um filho, dar um beijo na esposa ou no marido, é ter uma palavra de carinho, um gesto de atenção. Não precisamos de grandes projetos para amar e fazer os outros felizes. Bastam pequenos gestos, diários, constantes. Quem não faz isso, crie o hábito de fazê-lo; não os retarde, pois pode acontecer que quando se decidir a fazê-los já seja tarde e aí só restará tempo para arrependimento.

 

Tornar-se rico diante de Deus

 

•    O texto continua com uma advertência de Jesus, que diz: perde a vida “quem ajunta tesouros para si, mas não se torna rico diante de Deus. Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não se estraguem no céu”.  Não permanece para a eternidade e é perdido, tudo o que não for feito por amor, tudo o que não for realizado com o centro fora de nós, ou seja, pensando no bem dos outros. “Vendei vossos bens e dai esmola” significa justamente isso: não pensar em si, não mover-se por qualquer tipo de ganância, mas viver pelos outros.

•    O amor é a única coisa que levaremos para junto de Deus e que permanecerá para a eternidade. Tudo o que nós quisermos conquistar para nós, nós não possuiremos. Todo bem possuído fica nesta terra, o bem feito aos outros é o que levaremos conosco. O que fizermos por amor, ou seja, voltados para o bem e a felicidade dos outros é o que levaremos para junto de Deus. Importante é descobrir quanto nossos atos carregam de amor. É esse o valor para a eternidade, a riqueza que não se desgasta. Para tornar-nos ricos diante de Deus e não desperdiçar a vida é necessário fazer tudo o que se tem que fazer movido por um amor verdadeiro, que não tem em conta os próprios interesses, mas que tudo faz pelo bem e pela felicidade dos outros.

•    Quem ama faz tudo da melhor maneira e com a maior eficiência, não para ser reconhecido, mas pelo bem e felicidade dos outros.  Esse é o segredo que dá sentido e realiza nossa existência, fazendo-nos ricos diante de Deus e fazendo com que nossa vida permaneça com Ele.

 

Para refletir:

Diante de Deus, reflita: o que o move são ganâncias ilusórias ou é o amor que tem em vista o bem e a felicidade dos outros? 

 

Dom Wilson Luís Angotti Filho
Bispo auxiliar da Arquidiocese de BH