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Um Convidado, uma mulher e um anfitrião à mesa

 

A mesa do Senhor comporta outros convidados tantos, muitas
vezes silenciados pela dor ou pelo medo de serem excluídos ou
considerados inoportunos…Nossa atitude tende a formalizar a participação no culto e na vida, impedindo ou impondo regras que afastam e envergonham os outros. Jesus acolhe o amor que eles têm para lhe dar e, como Deus, que resiste aos soberbos, mas se aproxima dos humildes.

 

 

Pe Danilo César*

A cena da mulher que invade a refeição na casa do fariseu Simão impressiona por vários aspectos: pela mulher que tem a coragem de romper com inúmeras barreiras para se aproximar do Mestre de Nazaré; por Jesus, o Rabi que acolhe os gestos sensuais da mulher considerada como pecadora pública; pelo “anfitrião”, que apesar de religioso, não entende de acolhida, de amor e de misericórdia. É um relato tipicamente lucano, que aprofunda a vocação profética de Jesus por meio de elementos que intensificam a ruptura do Mestre com um sistema religioso, formal, indiferente e superficial. De fato, Lucas demonstra que Jesus é profeta que não teme a ruptura e a transgressão. Pouco a pouco vai se delineando em sua vida as previsões de Simeão, quando da apresentação do menino no Templo: “Esse menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição”, (Lc 2,34).

Atitudes “impróprias”

A mulher entra sem ser convidada. Do contrário não entraria, pois é conhecida como pecadora pública, embora anônima no nosso relato. Não se trata de Maria Madalena, nem de Maria de Betânia. A mulher é outra e o evento também. Acostumados a colocar todas as mulheres do evangelho no mesmo saco e a escrever por fora, “Madalena, prostituta”, incorremos em vários erros, além do preconceito. Não se sabe se Madalena era prostituta. A atribuição vem do fato de ser de Magdála, cidade de pescadores, onde se supõe ter havido muita prostituição. O que se diz dessa importante discípula de Jesus é que foi-lhe retirado sete demônios, que acompanhou o Mestre nos eventos da sua paixão, e que foi a primeira testemunha da ressurreição. A mulher que

Denunciar o defeito alheio, baseando-se numa pretensa religiosidade o faz sentir-se acima de seu convidado, revelando o teor do convite feito a Jesus, e acima da mulher, não restando nenhuma brecha para a compreensão e a solidariedade

entra em cena é outra, não tem nome, apenas rótulo, mas sua marginalização migra radicalmente para a notoriedade, podemos supor, por causa da confiança e da coragem que Jesus lhe inspira. Contudo, era-lhe socialmente vetado entrar na casa de um fariseu (“separado”), considerado puro e zeloso em relação às normas de pureza. Seus gestos para com Jesus eram considerados sensuais: normalmente se ungiria a cabeça em sinal de respeito ao convidado principal, contudo, a mulher unge os pés de Jesus, chora sobre eles e os enxuga com os cabelos. As atitudes sugerem um conhecimento anterior à refeição. Conhecera Jesus pela sua fama? Estava agradecida por algo? Tivera algum encontro com o Mestre para demonstrar seu afeto e gratidão? Pouco se sabe.

Jesus, o rabi convidado, acolhe os gestos e não repudia a mulher. A maneira de ela demonstrar seu amor encontra ressonância no coração do Nazareno. Contudo, sua atitude gera estranheza: como pode ele acolher uma mulher com essas expressões e, sendo profeta, como não se deu conta de sua vida questionável? O estranhamento de Simão não está fora do parâmetro social do tempo de Jesus. Contudo, revela seu fechamento e sua arrogância, convertendo-se de anfitrião para juiz. Seu julgamento, como o de Davi (primeira leitura), carece da misericórdia e da auto avaliação. Incomoda-o a fragilidade da mulher e censura a atitude acolhedora de Jesus. Denunciar o defeito alheio, baseando-se numa pretensa religiosidade o faz sentir-se acima de seu convidado, revelando o teor do convite feito a Jesus, e acima da mulher, não restando nenhuma brecha para a compreensão e a solidariedade.

Que tipo de Deus, que tipo de religião?

 

Quem é o Deus de Jesus? Quem
é o Deus do fariseu? Mais
importante seria nos perguntar:
e que Deus está no nosso coração?
O que preciso purificar de
minhas falsas imagens de Deus
a partir desse evangelho?

Simão, o fariseu, representa a antiga religião da sinagoga e a mulher, a comunidade dos cristãos. Mas esses dois modelos podem estar sendo por nós assumidos inconscientemente: de um lado, vivendo uma religião marcada por práticas exteriores e sem transformação; doutro, uma piedade e uma busca sincera de Deus. Simão representa uma religião sem Deus, e sem irmãos, pois tão cheia de si, não tem lugar para mais ninguém e não consegue enxergar mais que o próprio sistema e conquistas. Enquanto isso, a mulher sinaliza para uma religião que demonstra e aprofunda sua necessidade de Deus. O evangelho nos propõe um duplo reflexo: que tipo de religião praticamos? Talvez um, talvez outro, talvez ambos, convivendo dentro da gente e das nossas comunidades. O evangelho é um convite à purificação dessas estruturas distantes de Jesus.

Enquanto Simão formalmente convida Jesus para a sua mesa, não consegue acolhê-lo com os gestos de hospitalidade e de afeto. Ao contrário, cultiva uma suspeita pelo convidado. A mulher rompe as barreiras e adentra com a informalidade do amor que sabe dar, enfrentando as regras e rompendo preconceitos. O bem maior o atrai e fortalece. Jesus também transgride, aproximando-se mais da mulher transgressora: acolhe seus gestos, ainda que sensuais, e perdoa-lhe os pecados – atributo de quem é Deus. O que choca ainda mais os convivas… Quem é esse que perdoa pecados?

Quem é o Deus de Jesus? Quem é o Deus do fariseu? Mais importante seria nos perguntar: e que Deus está no nosso coração? O que preciso purificar de minhas falsas imagens de Deus a partir desse evangelho?

Jesus nos convida à mesa

Somos convidados a purificar, a transformar, um tipo de religiosidade de aparências, formal e impermeável aos feridos do caminho, impermeável ao próprio Jesus

A cada domingo nos colocamos à mesa com Jesus. É preciso muita coragem, pois somos também pecadores, como a mulher. Contudo, ele nos seduz (atrai para si) e nos faz romper as barreiras internas e externas. A mesa do Senhor comporta outros convidados tantos, muitas vezes silenciados pela dor ou pelo medo de serem excluídos: divorciados, recasados, pessoas homoafetivas, pobres, pecadores e tantos outros considerados inoportunos… Nossa atitude tende a formalizar a participação no culto e na vida, impedindo ou impondo regras que afastam e envergonham os outros. Jesus acolhe o amor que eles têm para lhe dar e, como Deus, que resiste aos soberbos, mas se aproxima dos humildes (cf. Tg 4,6), deixa que se aproximem dele (cf. Jo 6,37). Falta-nos um pouco de coragem da mulher e de Jesus… Como seus seguidores, guardadores do evangelho que nesse domingo recebemos, somos convidados a purificar, a transformar, um tipo de religiosidade de aparências, formal e impermeável aos feridos do caminho, impermeável ao próprio Jesus.

 

A Igreja não é comunidade de perfeitos, mas comunidade de santos e pecadores. De pessoas tocadas por Deus e por sua compaixão – por isso santos!-, mas também de pessoas que têm aguda consciência de serem inacabados e de precisarem de Deus. O ato penitencial no início da missa tem essa nobre função: recordar a misericórdia que nos santifica e recordar nossa real condição de fragilidade. Somos nós que choramos aos pés do Senhor, antes de nos colocar com ele à mesa.

 

As mulheres seguidoras de Jesus

Vamos rezar, abrir as portas e reconhecer efetivamente tantas mulheres que sustentam nossas paróquias e comunidades com sua graça, seu encanto, sua coragem, com sua força e determinação

O final do evangelho coincide com dois acontecimentos eclesiais de grande significado: o Papa Francisco elevou a comemoração de Santa Maria Madalena, de memória para festa. Fez justiça a essa mulher forte, testemunha da ressurreição de Jesus e experimentada em seu amor. Também nesses últimos dias, temos assistindo à discussão em torno da reabilitação do ministério das diaconisas. O assunto é amplo, merece estudo e talvez demore, para uma igreja que só recentemente admite meninas como coroinhas… Mas já se abriu caminho para conversar! Faz-nos lembrar as discípulas do evangelho que serviam (diekónoum)1 generosamente a Jesus com os bens que possuíam. Vamos rezar, abrir as portas e reconhecer efetivamente tantas mulheres que, como leitoras, ministras da comunhão, ministras da presidência leiga, cantoras, instrumentistas, mas sobretudo batizadas e seguidoras dedicadas e sinceras de Jesus, sustentam nossas paróquias e comunidades com sua graça, seu encanto, sua coragem, com sua força e determinação.

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1Diakonéo, verbo grego no modo infinitivo, que significa servir. No evangelho o verbo está conjugado no imperfeito. A raiz do verbo é a mesma para diácono.  

 

*Padre Danilo César Santos Lima é liturgista e pároco
  da Paróquia Santana, na Arquidiocese de BH