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Um caminho para a esperança – artigo do padre Marcelo Carlos da Silva

Com convicção, podemos afirmar que há uma direta relação entre a misericórdia e saúde, assim como são inseparáveis o amor e o perdão. Misericórdia e amor são compromissos cristãos, mas, também, integram um patrimônio ético e antropológico.

Como recorda o Papa Francisco, a misericórdia é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa. E como tal ela abre o caminho para a esperança. O tema da misericórdia é fundamental à espiritualidade cristã. Mas a sua nobreza e força vão além do próprio cristianismo. Isso significa dizer que a virtude da misericórdia é condição para ser feliz, inclusive para ter uma vida mais saudável.

A contemporaneidade, chamada pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky de hipermodernidade, é delineada pela cultura do excesso e da indiferença. Há em nossos dias um excesso, um “hiper”, que tem gerado uma falta gigantesca no campo do equilíbrio e da vida sóbria. Diante dessa cultura do excesso, somos inbterpelados a pensar que a misericórdia não é só virtude fundamental à fé e ao ser humano, mas caminho de vias arteriais da saúde espiritual e humana. Portanto, o caminho da misericórdia une Deus ao ser humano, e também devolve a cada indivíduo a condição de felicidade, inclusive, a de vida saudável.

Muitos sofrimentos, causados pelo modo de viver contemporâneo, com seus excessos que provocam dores na alma, podem ser curados pela misericórdia¸ que se desdobra em acolhida, tratamento e superação das misérias humanas e sociais

Podemos afirmar que em tempos dos “excessos de sobra” ou “excessos de falta” – que podem ser metaforizados nas doenças de obesidade e de subnutrição – a misericórdia é o caminho que nos resgata para o principio da humanização, que deve permear as relações entre as pessoas. Uma pessoa misericordiosa é aquela que vê a dor do outro e faz desse sofrimento um caminho de encontro, de superação, de solidariedade e de compaixão, pois estamos todos ligados uns aos outros. E o que acontece com o próximo, de alguma forma, diz respeito a mim também, me afeta e me interpela.

Todavia, existe outro aspecto que o caminho da misericórdia provoca em nós: o de nos libertarmos de nossos próprios exílios, de nossas próprias cadeias criadas pelas feridas de nossa história, pessoal ou familiar. Quantas famílias carregam feridas horríveis, profundas, que geram abismos para onde precipitam a saúde física, social e psíquica.  O bem-estar cede espaço para um vale de sofrimentos e limitações pessoais, que geram dependência química, sintomas físicos, psíquicos e mentais. Muitos desses problemas podem ser curados quando se trilha o caminho da misericórdia, um exercício ligado à religiosidade, mas também exigência para se alcançar saúde.

Muitos sofrimentos – causados pelo modo de viver contemporâneo, com seus excessos que provocam dores na alma – podem ser curados pela misericórdia¸ que se desdobra em acolhida, tratamento e superação das misérias humanas e sociais. Pois é pela via da misericórdia, ou seja, a partir do debruçar-se sobre a miséria humana, que podemos ajudar o outro e a nós mesmos a recuperarmos a humanidade perdida. Uma vida saudável depende da virtude paradigmática chamada misericórdia. Podemos até dizer que dela nascem outras tantas virtudes humanas e espirituais, como a compaixão, a tolerância, o respeito, o perdão e a reconciliação.

Há que se afirmar o caminho da misericórdia como legítimo, urgente e necessário para resgatarmos o ser humano de suas próprias quedas. Afinal de contas, algumas feridas não podem ser curadas somente com ajuda das ciências. Necessitam da colaboração da espiritualidade. Até mesmo os que não creem em Deus devem reconhecer que a misericórdia pode ajudar as pessoas a serem mais saudáveis em suas vidas, escolhas e projetos. Sejamos misericordiosos porque o Pai é misericordioso, mas também porque a nossa vida não pode ser saudável sem essa virtude fundamental.
Padre Marcelo Carlos da Silva
Reitor e pároco do Santuário Arquidiocesano de Adoração
Perpétua – Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem,
psicólogo, mestre em psicologia e processos grupais