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“Tu és o Cristo de Deus” (2)

Dentre os títulos que Jesus recebeu, o mais conhecido e usado, a ponto de se unir ao seu nome próprio, à moda de sobrenome, é Cristo. A Liturgia advoga seu uso em grande parte de sua eucologia. O recurso litúrgico – desde as origens do cristianismo – foi responsável por difundir as titulações de Jesus. Tradições se formaram em torno de cada título e, ainda que não seja o mais antigo , sem dúvidas foi o termo “Christós” que marcou definitivamente a imagem de Jesus de Nazaré, bem como a recepção de sua pessoa e mensagem e a caracterização de sua existência inteira. Isso se dá, sobretudo, porque este título está “associado à essência da mensagem cristã primitiva: a morte e ressurreição de Jesus.”

Christós é a palavra grega que – em geral – traduz o hebraico Mashiah . Se em grego aparece claramente o significado de “ungido”, em hebraico, porém, a terminologia indica algo além.  Dizer que alguém é “Messias” implica reconhecer sobre “aquele sobre o qual foi derramado” uma delegação por parte de Deus (e por isso a unção) para cumprir uma tarefa importante, sobretudo do ponto de vista régio e sacerdotal , sem esquecer do aspecto profético. O que importa para nós, no entanto, é que  “O Messias”, não simplesmente “um ungido”, era, geralmente , na espera popular do tempo de Jesus, uma figura régia, sobretudo davídica.”  

A afirmação e reconhecimento de Jesus como Christós/Mashiah está ligada à tradição discipular e não parece proceder diretamente da boca de Jesus. Nos evangelhos vemos Simão Pedro confessar que Jesus é o Messias, o Cristo de Deus , mas sabemos que ele, se não rejeita o título, tem certos receios com relação ao seu emprego. Referimo-nos aqui ao denominado “segredo messiânico”. Jesus não queria ser consignado e confundido com a expectativa popular que se tinha do Messias Rei e Guerreiro. Os estudiosos costumam atribuir este cuidado a Jesus mesmo, sendo mais do que um artifício dos autores sinóticos. Isso se explica porque

No tempo de Jesus, a expectativa messiânica assumia diversas modalidades. Parece que predominava a interpretação nacionalista e política da figura do Messias. Havia, porém, outras interpretações: o Messias esperado como mestre da lei, como sumo sacerdote escatológico, como profeta Elias redivivo, como o Filho do Homem, como servo etc.

Contudo, dado o sucesso do uso deste título entre os cristãos das origens, em especial do uso e abuso que Paulo faz do termo a ponto de referir-se à pessoa de Jesus simplesmente chamando de Cristo (quando começa-se a empregar o título como nome próprio), é importante verificarmos em que sentido Jesus é Cristo/Messias. Sobretudo porque em nossas celebrações, dia após dia, reiteramos este uso e – também – levamos conosco esta mesma designação: cristãos. Conforme reza a Oração do Dia do 15º Domingo do Tempo Comum, somos chamados a “rejeitar o que não convém ao cristão, e abraçar tudo o que é digno deste nome”. Mas, para isto, será preciso mergulharmos com bastante exatidão no sentido partícula com o qual a Igreja – já nos evangelhos – aplicou este título a Jesus de Nazaré. Sobre isso, trataremos no próximo artigo.