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The day after”™: terrorismo e migrações

Nada de novo debaixo do sol. Lamentavelmente, como era de se esperar, os imigrantes aparecem mais uma vez como “bode expiatório” para a crise política e ideológica desencadeada pelos atentados de Paris. A primeiras vítimas, claro, foram as próprias pessoas atingidas pelas balas assassinas dos extremistas radicais: algumas centenas entre mortos e feridos. Vidas, sonhos e famílias ceifadas em nome de Deus pela clássica barbárie do fanatismo religioso. No dia seguinte (the day after), começou a caça às bruxas.

 

Em sentido figurado, os imigrantes são as “bruxas” do momento. A história é conhecida e notória: na idade média, bruxas e feiticeiras, heréticos e infiéis; no tempo do renascimento humanista e do iluminismo, insensatos e loucos, cientistas e inovadores; durante a Revolução Francesa, nobres, aristocratas ou antirrevolucionários; no auge da Revolução Industrial, vadios, mendicantes e desocupados. Depois vieram os comunistas ou capitalistas, de acordo com a ideologia; os judeus e eslavos, pelos critérios da raça…

 

Dessa forma, sempre em nome de um deus/ídolo declarado ou não – o que quer dizer concepção política, ideológica ou religiosa – foram inventados as máquinas de matar: de forma coletiva e aleatoriamente, como as bombas da guerra; ou de forma seletiva, como a forca, a fogueira, a guilhotina, a câmara de gás, o pelotão de fuzilamento, a cadeira elétrica, o desaparecimento puro e simples. Daí os símbolos sinistros, que causam arrepios e calafrios: Bastilha, Auschwitz, Treblinka, Holocausto, Gulag, Guantánamo, pogrom, purgação, limpeza étnica, tortura, aniquilação…

Hoje, do ponto de vista de quem busca na migração uma saída para a pobreza ou a violência, os arrepios e calafrios surgem na necessidade de separar-se da terra, dos familiares e dos amigos; no cruzamento das fronteiras, com muros de arame farpado e vigilância cada vez mais cerrada e rigorosa; no processo de documentação, na incerteza quanto ao futuro e no medo permanente de ser descoberto como “irregular” e deportado; nos campos de concentração e acampanmentos para os “indesejados” ou “incapacitados”, tidos como migrantes de segunda categoria…

Vamos aos fatos. Logo após o famigerado 13 de novembro – “11 de setembro francês”, como foi batizado por alguém – as forças de ordem passaram a fazer incursões frequentes nos bairros parisienses dos “estrangeiros”, especialmente junto à população árabe. Não foi diferente nos demais países, como Bélgica, Alemanha, etc., com diferentes graus de violação de direitos humanos. Em grande parte dos casos, trata-se de uma varredura com boa dose de violência. Na Itália, algumas dezenas de imigrantes “indocumentados” já foram deportados para os países de origem, com destaque para os marroquinos.

Por parte das autoridades, verifica-se uma sequência de encontros e decisões para enfrentar a crise. Com a incansável cruzada de François Hollande, cresce a coalizão internacional contra o ISIS (Islamic State of Iraq and Syria). Cresce igualmente o orçamento de vários países para o quesito “segurança nacional”. A população, por seu lado, em boa parte se retrae dentro de casa, evita aglomerações, trata de digerir o medo e o pânico. Quanto à mídia, prevalece o sensacionalismo e a espetacularização dos fatos. Com isso, de uma forma ou de outra, acaba fazendo o jogo dos terroristas.

Nos três casos – governo, população e mídia – o fio que separa o terrorismo da migração torna-se cada vez mais débil. Instala-se e propaga-se a confusão. No “dia seguinte” aos atentados, criminalizar o outro, o diferente e ou o esranho, mais do que exceção, torna-se regra. Pior ainda: criminaliza-se a priori o próprio ato de migrar, não importa se por motivos socioeconômicos ou devido a conflitos armados. Mais do que nunca, seja nas ruase nas conversas cotidianas, seja na imprensa falada, escrita ou televisiva, vem à tona a expressão “extra-comunitários”!

Tudo isso significa, de um lado, maior dificuldade para romper as fronteiras e entrar nos países do velho continente e, de outro, risco crescente para levar adiante uma vida normal como estrangeiro permanente, e mesmo como cidadão naturalizado europeu.

 

Pe. Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais