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Quem ouviu, nos últimos tempos, um grito de “Viva o Congresso”? Quem acha que impostos e tributos têm diminuído? Há alguém que considere adequada a legislação trabalhista da era getulista? Quem acredita que a violência está rareando? Professores e alunos estão satisfeitos com as condições de ensino? Qual felizardo consegue encontrar uma bandeira brasileira para adquirir antes da bandeira de qualquer grande time de futebol? Quem acha que o PNBF – Produto Nacional Bruto da Felicidade – está crescendo?

As respostas servem para atestar nosso grau de patriotismo. E expressam a distância entre o território, o país e a nação. O território é o espaço físico que nos abriga. Orgulha-nos a dimensão continental do Brasil, pelas belezas e riquezas naturais. Quanto ao território, um ente ainda sem alma, trata-se de um diamante bruto, em processo de lapidação por meio de leis, códigos, instâncias legais, habitado por pessoas, governado por representantes do poder popular. Nessa condição, adquire o status de país. Já a nação, que tem espírito, abriga as cargas valorativas de civismo, solidariedade, justiça, liberdade, ordem, autoridade, soberania e cidadania.

Como erigir uma Nação? Construindo o edifício dos valores da Pátria. Reformando costumes. Consolidando padrões de grandeza. Por onde começar? Pela primeira reforma, a da política. E, a seguir, pela fixação dos eixos da economia. Mas a gastança desses tempos perdulários sobrepõe-se à poupança. E assim, o arquipélago acaba sendo pulverizado por ilhas de desigualdades. Apesar da escalada de 30 milhões de brasileiros ao meio da pirâmide, outros milhões continuam vegetando nas margens. O analfabetismo funcional (gente que sabe ler, mas não compreende o texto) ainda é muito alto. O espírito cívico desvanece. A Pátria, um sonho das consciências, vai se esgarçando e formando uma nuvem opaca e fugidia.

Há razão para a descrença? Sim. O estado de descalabro que a gestão pública e a política semeiam no território. O delator Paulo Roberto Costa acaba de proclamar: a corrupção é um cancro que está em todos os espaços, nos portos, aeroportos, ferrovias. São licitações fajutas, superfaturamento, desmandos, desvios, percentagens para chefões e chefinhos, sob o olhar complacente dos poderosos. Somos também o país da piada pronta. Pois não é que a defesa do Nelson Cerveró, ex-diretor da Petrobras, está sendo paga pela própria petroleira, eis que a empresa dispõe de um seguro para cobrir ações sob comando de gestores e ex-dirigentes?

Os dutos de propina que fluem na gestão pública vêm de longe, lá dos primeiros vãos de nossa civilização. Climas de emboscada, de conluios e jogos de poder invadem os espaços. Simon Bolívar, o timoneiro, hoje tão em moda, dizia em seus primeiros escritos: “Não há boa fé na América, nem entre os homens nem entre as nações; os tratados são papéis, as constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia e a vida um tormento”.

No horizonte da desesperança o que se contempla é uma paisagem de sombras e vestígios dos valores que formavam o caráter de homens valorosos: a firmeza nas crenças, a força da palavra, o cultivo à solidariedade, o zelo pelo compromisso, o amor ao trabalho, a união familiar, o respeito aos mais velhos. Que tempos aqueles em que belas virtudes propiciavam aos cidadãos harmonia e doçura de vida.

O grande tribuno, advogado e político, Rui Barbosa, com sua pena flamejante, fecha a moldura desse ciclo de barbárie com sua conhecida cutucada: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação