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A música na liturgia goza de grande apreço. Não é apenas um adorno, mas manifesta o sentido vigilante da Igreja a espera do seu Senhor, a alegria pascal que brota da fonte do amor. Além disso, o canto é uma forma potencializada de oração. Citando o bispo de Hipona, a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR 39) diz que o bem cantar é rezar mais. Tanto cantar bem, quanto rezar mais requerem tempo, dedicação e formação.

O canto, contudo, não pode estar desvinculado de seu contexto sócio cultural. A Instrução fala de um canto contextualizado pela índole dos povos e possibilidade das assembleias. É uma porta aberta à inculturação e uma sensibilidade extraordinária de um documento do magistério universal. Pede-se, no entanto, que se valorize, pelo canto, os dias mais festivos – domingo e festas de preceito – e as partes mais importantes da missa (IGMR 40). Mas, o que se afirma aqui parece contrastar com o que segue… Será mesmo? Vejamos.

A participação dos fiéis deve ser favorecida
Assim, o papel do canto na liturgia, seja ele
gregoriano, polifonia ou outro gênero, é o de fomentar a participação de todos

O canto mais característico da liturgia da Igreja é o canto gregoriano ( IGMR 41). Acontece que a Instrução não restringe o cantar da Igreja a este modelo. Ao contrário, admite e amplia as modalidades e formas de cantar nas celebrações, desde que elas estejam de acordo com o espírito da liturgia. O próprio artigo que afirma a importância do canto gregoriano o iguala aos demais gêneros (“em igualdade de condições”, diz o texto).

 

O uso do canto gregoriano é incentivado, especialmente, para as ocasiões em que as reuniões de fiéis de diferentes países, culturas e línguas se encontram. Outro critério é apresentado: a participação dos fiéis deve ser favorecida. Assim, o papel do canto na liturgia, seja ele gregoriano, polifonia ou outro gênero, é o de fomentar a participação de todos.

Este entendimento sobre a participação parece ajudar a entender o lugar do canto gregoriano. No conjunto das afirmações sobre a música na liturgia, como acolher o incentivo do apóstolo para o cantar nas assembleias diante de um gênero musical tão distante e com uma língua tão desconhecida? Não comprometeríamos a participação consciente dos fiéis, ainda que uma peça do repertório gregoriano seja maravilhosamente bela? O que fazer? A instrução não entra em pormenores, contudo, convém não perder de vista os poucos critérios apresentados: valorização dos dias mais festivos, valorização das partes mais importantes da missa, participação dos fiéis.

Talvez devêssemos considerar o caráter fontal do canto gregoriano para a música nas celebrações: ele deve inspirar as novas composições pelas suas características, pela firme orientação para o mistério de Cristo e pela natureza litúrgica.

 

Pe Danilo César

Liturgista