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Silêncio: Kênose e brasas para o incenso divino

O artigo 45 da Instrução Geral do Missal Romano (IGMR) termina com as seguintes palavras a respeito do silêncio na liturgia da missa: “Convém que já antes da própria celebração se conserve o silêncio na igreja, na sacristia, na secretaria e mesmo nos lugares mais próximos, para que todos se disponham devota e devidamente para realizarem os sagrados mistérios”. A liturgia requer uma preparação, uma atitude prévia, uma disposição para celebrar os mistérios. São João Crisóstomo já dizia no seu comentário ao Salmo 140:

Assim como o próprio incenso é bom e cheira bom, e sobretudo emana bom odor quando lançado ao fogo, assim, a oração é certamente boa em si mesma; mas é melhor e mais perfumada, quando oferecida com ardente e fervoroso espírito, quando a alma é um queimador de incenso e acende um fogo ardente. Com efeito, não se deposita no braseiro incenso para consumir-se, se antes não estava ardente ou os carvões em brasas. Isso mesmo deve fazê-lo em sua alma: primeiro acendê-la com fervor, e então depositar a oração.

Se é verdade que o autor usava esta feliz comparação para falar da necessidade da oração pessoal para preparar a oração da Igreja, com mais justeza será necessário preparar o coração, qual um braseiro, para se oferecer o bom perfume do memorial eucarístico. Mas, como, se o silêncio que nos falta deixa a alma apagada como o carvão que não foi aceso? Em nossa arrogância não entramos no misterioso modo do agir divino, julgando-nos satisfeitos com as brasas apagadas e esfriadas pela indiferença de alma, pensando “que bobagem”…

 

Na liturgia, somos convidados a nos esvaziar, a fazer a nossa kênose, no silêncio da oração, antes de celebrar os mistérios

Paulo, por sua vez, nos convida a ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo que se esvaziou (kênose) de sua condição divina, não fazendo caso dela, mas tornando-se semelhante aos homens. Na liturgia, somos convidados a nos esvaziar, a fazer a nossa kênose, no silêncio da oração, antes de celebrar os mistérios. Somos convidados a deixar o espaço interior, imitando Cristo que se despojou de si mesmo.

Isso não significa desconectar a liturgia da vida, como se devêssemos deixar as nossas coisas do lado de fora da Igreja. Ao contrário. Ao calar o nosso interior, colocamos todas essas coisas em relação com o mistério de Deus que deve reger tudo em nossa vida. Mas nada disso será possível sem fazer espaço, sem abrir mão confiantemente para que Deus venha transformar nosso viver em sacrifício que lhe agrade. Deixemos espaço para que sopre em nós o vento do Espírito. Que ele acenda o braseiro do coração e que o incenso do sacramento, em nós, eleve o bom odor de Cristo ao Pai.

 

Pe Danilo César dos Santos Lima
Liturgista