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Servir o Cristo nas Escrituras

O ministério dos leitores, de antiga tradição na nossa Igreja, tem a nobre tarefa de dar aos fiéis o próprio Cristo, Palavra viva do Pai. A Constituição Conciliar Dogmática, Dei Verbum, sobre a Revelação Divina, artigo 21, diz: “A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na Sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo”.

O texto é importante, pois ajuda-nos a compreender a Escritura de outra maneira do que aquela costumeira e usual que tende a considerar a Palavra como quase desimportante para a vida eclesial. Que maneira? A Sagrada Escritura, na liturgia, tem estatura sacramental, isto é, como sinal, nos comunica a vida divina. Por meio dela, entramos em comunhão com o Verbo encarnado de Deus. A Palavra de Deus é geradora de fé que, por sua vez, nasce “pelos ouvidos”, isto é, pelo anúncio da Palavra do Pai. Mas para que chegue aos ouvidos é necessário que seja anunciada, pronunciada e isso, quem o faz é o Cristo, que fala quando na liturgia se leem as Sagradas Escrituras (cf. SC 7). Na liturgia é Deus mesmo quem nos fala.

 

A Sagrada Escritura, na liturgia, tem estatura sacramental, isto é, como sinal, nos comunica a vida divina. Por meio dela, entramos em comunhão com o Verbo encarnado de Deus

Na celebração, Ele nos dá sua vida no pão da Palavra e no pão da Eucaristia. E um, como o outro são tomados e distribuídos, conforme relata a narrativa institucional. Mas o gesto de distribuir é precedido pelo gesto de tomar. Ele tomou o pão nas mãos (cf. Lc 22,19), e “tomou” a Palavra (cf. Lc 4,17.21-22), falando aos seus “Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos esta Escritura que acabastes de ouvir”. Anúncio e cumprimento, duas realidades que na Eucaristia, como um único ato de culto, se implicam e se realizam.

Como o Cristo toma hoje a sua Palavra? Por meio do serviço dos leitores suscitado no seu corpo místico, a Igreja. Mas para que seja o Cristo que tome a Palavra é necessário que o membro escolhido do seu corpo tenha o seu agir modelado pela ação de Cristo, o anunciador do Pai. Isso implica uma relação de intimidade com a Palavra de Deus, deixando-a encarnar-se na sua corporeidade: postura, voz, entonação. Por analogia, a Palavra é dada aos fiéis como o é o corpo sacramental de Cristo. O pão e o vinho são corporificações do Corpo e sangue de Cristo. O leitor e sua expressividade, o livro das leituras, o ambão e o rito são corporificação da Palavra que na liturgia se toma e se dá aos fiéis.

Pe. Danilo César
Liturgista