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“Filho, conserva-te firme e espera em mim, pois palavras são palavras; ferem os ares, mas não quebram a pedra. Se és culpado, trata logo de emendar-te; se a consciência de nada de acusa, faze o propósito de sofrer isso de boa vontade, por amor de Deus. Não é muito sofreres, às vezes, más palavras, já que me não podes ainda suportar mais pesados golpes. E por que razão te ferem tão leves coisas senão porque és ainda carnal e fazes ainda mais caso dos homens do que convém? Temes ser desprezado, e por isso não queres ser repreendido de tuas faltas e procuras defender-te com desculpas.” (Imitação de Cristo, Livro III, 46)  

 

Diante deste trecho da Imitação vem ao meu coração a seguinte palavra de Jesus: “Felizes os pobres em espírito”. Há uma pobreza material e uma pobreza de espírito, mas a primeira só será verdadeira se motivada pela segunda. A pobreza de espírito é uma identificação com Jesus que começa no íntimo do coração e se traduz no desapego de si mesmo, das coisas e das pessoas. O pobre é, portanto, alguém que confia absolutamente em Deus, pois se desapega das seguranças humanas para se apoiar somente n’Ele; confia na bondade do Pai e está certo de que nada lhe faltará. Esta é a pobreza de Jesus: despojou-se de tudo e abandonou-se sem reservas nas mãos do Pai, pois n’Ele confiava inteiramente.

 

É preciso manter-se vigilante na confiança e no desapego para não voltar atrás e mesmo que demos passos atrás, devemos vigiar para conseguir reconhecer onde é que nos perdemos e retomar o caminho

De fato, a pedagogia de Deus para nos conduzir à liberdade é muito bonita: Ele primeiro nos dá tudo e depois nos diz: ‘agora, para possuir este presente você precisa se despojar de todo o resto, pois só pode ter a alegria de Tudo possuir quem se desapega de todo o restante’. Seria terrível se Ele nos mandasse vender tudo antes de sequer conhecermos a pérola preciosa. Com que motivação nos despojaríamos das riquezas?

 

Depois de encontrarmos o tesouro escondido passamos a compreender que ele não aceita concorrentes, mas é sempre exclusivo e excludente. Quem o possui não pode ter outro, pois não é possível servir a dois senhores já que se amamos a um, desprezamos o outro e assim, a eleição de um exclui completamente o outro. Só depois desta eleição começa nossa caminhada de despojamento. Digo caminhada porque é um termo bem adequado. Será preciso despojar-se por toda a vida. De forma que seja um gesto cada vez mais interior, mais profundo e mais parecido com o despojamento de Jesus. O despojar-se de hoje exige uma decisão renovada amanhã, pois a fome de pecado habita em nossa carne e ela é insaciável. É preciso manter-se vigilante na confiança e no desapego para não voltar atrás e mesmo que demos passos atrás, devemos vigiar para conseguir reconhecer onde é que nos perdemos e retomar o caminho.

Adoremos Jesus e contemplemos sua imensa pobreza. Com muita clareza, sua pobreza material chama rapidamente nossa atenção, mas vamos contemplar hoje a pobreza do Coração de Jesus, ‘Ele que de rico se fez pobre para nos enriquecer com Sua pobreza’. Jesus não se importou com o que era dito a Seu respeito, pois Ele sabia quem era e mesmo antes de sua morte física já havia morrido para o mundo, pois, na verdade, nunca pertenceu ao mundo. Jesus nunca teve qualquer tipo de amizade com as coisas da carne. Tinha o Coração livre em relação às pessoas, aos bens materiais dos quais fazia uso e também em relação a si mesmo. Não se importava com Sua imagem. Se se importasse, teria usado da fama que tinha por causa dos milagres para fazer publicidade. Cada um dos anos de sua vida humana apontava para a Cruz. Ele não foi pobre e livre apenas no dia de Sua morte, mas em toda a vida. Contemple a pobreza do Coração do Senhor e recorde-se de que nos tornamos semelhantes ao que contemplamos.

Que o desejo de mergulhar inteira e definitivamente em Jesus arrebente as correntes que ainda nos amarram e nos faça desejar o Céu.

 

Ludmila Rocha Dorella
Consagrada da Comunidade de Vida

Formadora Geral