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Ser como pontífices em um mundo que cria abismos

Pe Danilo César*

A parábola do rico e do pobre Lázaro denuncia não só a realidade social em que vivemos, onde uma grande maioria da população experimenta viver de muito pouco, enquanto um pequeno grupo esbanja e desfruta da imensa riqueza produzida pelo planeta, mas também a indiferença que pode habitar o coração dos discípulos e que desfigura e despersonaliza aqueles que se deixam levar pelo vazio da opulência, bem como a construção da vida que realizamos antes da morte. Viver é construir-se, é fazer-se num processo de decisões e escolhas que envolvam não somente nós mesmos, mas os outros. Nos termos da parábola, em boa medida, a liberdade humana sela e define a existência após a morte: o rico que possuía muitos bens, sofria os tormentos e Lázaro, o gozo junto ao pai Abraão. Lázaro foi impedido não só materialmente. Sua vida não desabrochou, porque privado do mínimo e do essencial, não expandiu existencialmente com todas as potencialidades humanas. Sua penúria era resultado da indiferença do rico, que além de fazer mal ao outro, deixou que as riquezas o desfigurassem. Sem nome, ele é designado como “o rico”. Suas potencialidades são impedidas por outras razões: ele se torna “coisa, coisamente”, como diz o poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade, em sua poesia “Eu etiqueta”. Contudo, é igualmente impedido de desabrochar existencialmente por sua péssima relação com a riqueza, seu outro mal.

 

É a caridade cristã, ou amor, que nos regenera como ressuscitados e nos faz caminhar como discípulos de Cristo e com ele

A morte é apresentada como o limiar entre o provisório em que se dá a autoconstrução na liberdade pessoal e o definitivo para onde se prolongam as escolhas, mas também a justiça divina, simbolizada por Abraão, que reequilibra as relações, dando ao pobre a plenitude existencial de que lhe fora privada. No caso do rico, ele deseja que Lázaro venha até ele para lhe aliviar os sofrimentos, para que seja ponte em seu favor. Contudo, os impedimentos de outrora agora pesam sobre si: sua indiferença em vida, gerou o abismo que não permitia a passagem de Lázaro, a quem ainda trata como inferior e a quem quer impor a tarefa que não cumpriu: “Pai Abraão, manda Lázaro…”. Deseja poupar os que pertencem ao seu círculo familiar, propondo a volta de Lázaro para avisá-los, mas recebe de Abraão a resposta de que eles já contam com os profetas e Moisés, isto é, as Escrituras. Na insistência, sua proposição insinua a força do alerta por parte de um morto, à qual responde Abrãao: “mesmo que alguém ressuscite, eles não acreditarão”.

Esse diálogo final abre a parábola para a perspectiva da fé pascal, situando-a nesse horizonte, pois Jesus é, a um só tempo o rico que fez ponte, fazendo-se pobre para nos enriquecer, o pobre que Deus exalta à sua direita e aquele que ressuscitando dos mortos nos convoca para uma vida nova. Jesus supera os abismos porque sua vida não rimou com a indiferença do mundo. A parábola dá-nos assim o parâmetro da caridade cristã: ela é fruto da vida nova que já se vive antes da morte, superação da indiferença que gera abismos em nós e entre nós, convocação das Escrituras para iluminar as escolhas na liberdade da existência, e ponte que nos conduz ao outro que está sofrendo à “nossa porta”. É a caridade cristã, ou amor, que nos regenera como ressuscitados e nos faz caminhar como discípulos de Cristo e com ele.

A liturgia foi o lugar primeiro de acolhimento, pela escuta de Moisés e dos Profetas, da convocação das Escrituras para a superação dos abismos que existem dentro de nós e ao nosso redor. Na Liturgia o Ressuscitado veio ao encontro dos que creem na vida nova, que aqui se antecipa, e fez-se ponte de salvação para todos e entre todos, na comunhão dos dons e dos santos. Mas a liturgia terminou com o envio: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”. Em paz significa viver diferente do rico que concluiu sua existência nos tormentos, frutos da desfiguração promovida pelas riquezas e da indiferença que impediu o pobre de viver dignamente. Em paz significa viver a semana e a vida toda sendo ponte, propondo-nos a nós mesmos a mudança do coração e não aos outros, como o rico que não tendo feito ponte, queria Lázaro para fazê-la em seu benefício e dos seus parentes. Em paz, significará viver, no amor, como já ressuscitados e, por isso, pertencentes à vida que o Senhor nos reserva depois da morte.

*Pe Danilo César dos Santos Lima
Mestre em Liturgia e pároco da Paróquia Santana