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Rezar pelos que precisam ser consolados

 

Na linda oração de São Francisco de Assis, fruto de um coração desejoso de se tornar instrumento da paz e do amor, vemos um belo pedido dirigido a Jesus: ‘que eu procure mais a quem consolar do que pessoas que me consolem’. Este pedido é a manifestação da evangelização, do desejo de ser consolado: ao reconhecer a importância de ser consolado, quer ser para os outros bálsamo e alívio. Desta forma, poderemos cumprir o mandamento de amar o próximo como a nós mesmos e assim encontrar consolo ao consolarmos quem se encontra de alguma maneira desconsolado.

Se formos fiéis à nossa vocação batismal, tudo em nós poderá comunicar a bondade de Deus

Todo gesto de amor verdadeiro é movido pelo Espírito Santo. É Ele o dom de amor derramado do seio da Trindade, Ele é o amor derramado do coração de Jesus aberto na Cruz. E este Amor derramado que nos impulsiona a amar é também o Consolador (o Paráclito). Consolar é, portanto, ser um instrumento do Espírito para confortar, reanimar, encorajar. Guiados por Ele somos livres do risco de ceder à adulação e à superproteção e somos conduzidos a amar com o carinho, a ternura e a firmeza de Deus que não pode realizar outra coisa senão libertar os corações e jamais aprisionar. Assim poderemos ser instrumentos do consolo de Deus, pois se quisermos consolar com as nossas capacidades rapidamente reconheceremos como “Curto e vão é todo consolo humano”- Imitação de Cristo – Livro III – Capítulo XVI.

Não penso que servir a Deus nos irmãos desta maneira seja algo difícil e misterioso. Muito pelo contrário. Ao sermos batizados, fomos inteiramente mergulhados em Deus e, se formos fiéis à nossa vocação batismal, tudo em nós poderá comunicar a bondade de Deus. Um sorriso, uma palavra, um silêncio, um instante de companhia, uma oração fervorosa, um gesto humilde, uma atitude verdadeira e sincera… são capazes de comunicar a presença consoladora de Deus.

 
  Quando Deus nos consola nesta vida, nos dá a alegre esperança de sermos um dia por Ele plenamente consolados no Céu

 

Tanto os irmãos quanto os belos elementos de toda a obra da criação podem servir a Deus como vias de Seu amor. Entretanto, é preciso compreender que são apenas instrumentos, pois só o Senhor é a verdadeira fonte de onde emana amor, consolo, bondade. É por isso que só devemos esperar consolação verdadeiramente plena na vida futura. “Porque ainda que eu tivesse todas as consolações do mundo e pudesse fruir todas as suas delícias, certo é que não poderiam durar muito tempo.”
 
Não há realidade terrena que dure para sempre. ‘Céu e terra passarão, somente as palavras de amor de Jesus não passarão jamais’ (cf. Mt 24, 35), portanto, mesmo que tivermos toda a consolação do mundo ela passará. Portanto, considera, ó minha alma, que não poderás achar consolo pleno e alegria perfeita senão em Deus, que consola os pobres e agasalha os humildes. Espera um pouco, ó minha alma, espera a divina promessa, e no céu terás todos os bens em abundância.
 
Quando Deus nos consola nesta vida nos dá a alegre esperança de sermos um dia por Ele plenamente consolados no Céu. É lindo o que diz o texto da Imitação: Espera um pouco, ó minha alma… espera só um pouco… o Céu é logo! Já podemos experimentar o consolo de Deus nesta vida – uma vez que Ele nos chama a viver na Sua amizade e nele está a bem aventurança e a felicidade -, mas ainda não plenamente! Portanto é preciso dizer: Espera um pouco, ó minha alma… espera só um pouco…
 

Na oração da coleta do XVII Domingo do tempo Comum rezamos assim: “Ó Deus, sois o amparo dos que em vós esperam e, sem vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é santo; redobrai de amor para conosco, para que, conduzidos por vós, usemos de tal modo os bens que passam, que possamos abraçar os que não passam.”

 

 

Enquanto caminharmos nesta vida, devemos nos lançar com toda força na descoberta do segredo dos santos: encontrar amor no ato de consolar

 

Podemos de certa maneira parafrasear esta oração rezando ao Senhor: dá-nos acolher o consolo que nos concedes nesta vida que passa para abraçar um dia o consolo eterno na vida que não passará jamais.
 
Enquanto caminharmos nesta vida, devemos nos lançar com toda força na descoberta do segredo dos santos: encontrar consolo em consolar ou encontrar amor no ato de consolar, pois, como ensina São Bernardo de Claraval, ‘o fruto do amor é o próprio ato de amar’. Seja nosso consolo o esforço de consolar Jesus cuidando de Suas chagas tão dolorosas; seja nosso consolo fazer Jesus feliz com nossos pequenos atos de amor e oferta. Que Santa Teresinha nos ajude a trilhar este caminho. Ela que não vivia mergulhada em consolações, mas encontrou alegria puríssima em amar Jesus consolando-O em Suas dores, sacrificava-se pela salvação das almas para dar de beber a Jesus sedento na Cruz. Diante de Jesus, no desejo de encontrar consolo em consolá-lo, façamos nossa esta oração que se segue. Trata-se de um trecho do Ato de Oferecimento de Santa Teresinha como vítima ao Amor Misericordioso de Deus:
 
Queria consolar-Vos das ingratidões dos maus, e peço-Vos me tireis a liberdade de desagradar-Vos. Se eu por fraqueza cair, alguma vez, logo o vosso olhar purifique a minha alma consumindo todas as minhas imperfeições, assim como o fogo transforma todas as coisas em si mesmo.
 
Infinitas graças Vos dou, meu Deus, por todos os favores que me tendes concedido, em particular por me terdes feito passar pelo crisol da tribulação. Ah! que delícia contemplar-Vos no último dia arvorando o cetro da cruz! E já que Vos dignastes dar-me em quinhão essa cruz tão preciosa, espero que no céu também hão de, como no Vosso, refulgir no meu corpo, glorificado, os sagrados estigmas da Vossa paixão.
 
Após o exílio da terra espero ir gozar-Vos na Pátria Celeste, mas não quero entesourar méritos para o Céu; desejo trabalhar só por Vosso amor, com o único fim de Vos agradar, consolar o Vosso Sagrado Coração e de salvar as almas que Vos louvem e amem eternamente.

 Consolemos neste dia o coração de Jesus rezando por aqueles que precisam de consolo. São tantas as realidades de sofrimento… Jesus tem sede e nós podemos saciá-lo!
 

Ludmila Rocha Dorella
Consagrada da Comunidade de Vida