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Procurando no arquivo da minha memória para refletir sobre a ressurreição, veio-me de repente uma frase de minha mãe Domênica, pronunciada há muitos anos, exatamente depois da Missa de Páscoa, enquanto estávamos tomando café com o ovo bento, como é costume na Itália. Ninguém, no Dia de Páscoa, deixava de comer o ovo abençoado pelo padre, na visita às famílias, e um pedaço de bolo feito com uva passa.

É a bênção da ressurreição, e minha mãe, comentando comigo a homilia da Missa, dizia: “Ressurreição é acordar-se do sono, do torpor, do desânimo, do desespero e recomeçar o caminho da vida, sabendo que o Senhor caminha conosco”.  Já tivera muitas experiências na sua vida de mulher analfabeta, mas com longa caminhada no meio do povo.

A ressurreição – dizia ela – “é o nascer da semente que fica enterrada dias e dias debaixo da terra e que ao primeiro cair da água e surgir do sol vai nascendo, dando vida nova a toda a planície. É ver como, passado o inverno que parece morte, mas não é, tudo volta a florescer e a ser bonito. Assim é a Páscoa. A gente sofre tanto na Sexta-feira Santa, sofre até chorar, ao ver Jesus traído pelos melhores amigos, coroado de espinhos, sem ter feito nenhum mal, mas ao contrário, só ter feito o bem a tanta gente. Sofre ao ver Jesus carregando a cruz sobre a qual será crucificado”.

“Dá dó ver que os apóstolos o abandonaram… A gente sofre. Os olhos se enchem de lágrimas quando se vê o Cristo que nem pode mais carregar a cruz, mas é obrigado e chicoteado. Cristo morre, mas Ele acorda, sai do sepulcro e vive de novo, e manda as mulheres darem o anúncio da vida nova”.

“Sei que isto é verdade, não por ter lido, não sei ler – prossegue mãe Domênica – mas porque vocês padres dizem que está escrito no Evangelho. E mesmo que não estivesse escrito, sei que é verdade, quando olho a vida das pessoas ao meu lado. Você conheceu a Albina, ela tinha câncer, sofria terrivelmente, mas todas as vezes que sabia que alguém ia visitá-la, costumava dizer à minha irmã que cuidava dela: ‘Olhe, me deixe bonita como uma páscoa porque hoje vêm as minhas amigas e quero que vejam que estou ressuscitada’.

Páscoa  é o nascer da semente que fica dias e dias debaixo da terra e que ao primeiro cair da água e ao surgir do sol, vai nascendo, dando vida nova a toda a planície.    

E ela era alegre, feliz, embora a mordida da dor fosse forte e a fizesse sofrer atrozmente. Essa me parece que é a ressurreição, a coragem de aguentar o sofrimento e crer que é possível ser feliz quando se pensa na alegria dos outros. Quantas pessoas eu tenho visto ressuscitar com a nossa ajuda, reviver, serem outras. Quantas crianças, por um pedaço de pão recebido com carinho e amor, abrem o seu sorriso e nos falam da vida que renasce…”

Minha mãe continuava dizendo com força e coragem: “Acham que só vocês que estudam e são padres, porque sabem latim, conhecem a ressurreição? Não, também nós sabemos disto”. 

“Outra coisa linda, que parece uma ressurreição, é o nascimento de uma criança. As dores do parto são de morrer, mas a criança que vem ao mundo é alegria, é ressurreição, é vida nova. A ressurreição  é  despertar do sono e abrir os olhos à nova vida e ver como Deus não quer ver ninguém sofrer nem desanimar. A Páscoa é a festa mais bela, por isso toda a natureza coopera, até as flores do meu jardim no Dia de Páscoa são mais bonitas e perfumadas…”

Esse acontecimento que estava guardado na minha memória me fez sorrir silenciosamente e dei nota 10 com louvor à minha mãe em teologia bíblica. Sem que ela tenha lido um texto de exegese, e nada saber de estudo, entendia que a ressurreição não é de ontem, mas de hoje, e que Jesus está vivo entre nós no sorriso, na vida, na criança que nasce, no doente que sabe superar a dor para receber os que ama etc.

Cheguei à conclusão de que o dogma da fé na ressurreição de Jesus Cristo é o mais fácil de acreditar e o mais belo, que é para todos incentivo a não permitir que o desânimo entre na vida, que o pessimismo faça desaparecer a beleza do amanhã. É só olhar ao nosso redor e temos uma experiência maravilhosa de como vida e morte se alternam no cenário do mundo, mas a vitória é sempre da vida.

Todo gesto de amor, de gratidão, todo sorriso dado a alguém tem o efeito de ressurreição, de alegria que vem de dentro. A Páscoa é momento de sair pelas ruas  e distribuir sorrisos, apertos de mão, e dizer para cada pessoa: “Coragem, não tenha medo, Cristo ressuscitou, Ele está vivo!”.

Cristo veio para nos ensinar o caminho a ser percorrido, do nascimento até a morte, mas depois da morte Ele quis dar para todos uma lição maravilhosa: a morte, que é o nada, não pode vencer nem ser rainha; Deus faz com que a vida retorne na eternidade.

Não é necessário estudar para acreditar na ressurreição de Jesus e na nossa. É suficiente parar e olhar dentro de nós mesmos e ver quantas vezes morremos e quantas vezes ressuscitamos, retomando o caminho da esperança e do amor. Sentir que Jesus ressuscita em nós porque nos doa a coragem de viver. Dizer aos outros como Ele disse: “Coragem, eu venci o mundo!”
 

Frei Patrício Sciadini, OCD
Teólogo e Escritor