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Ressurreição: dinâmico despertar da vida

“… viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos, para não morrermos soterrados na poeira da banalidade” (Lya Luft)

 

 

“Viver como ressuscitados”: esta é a paixão que não nos dá repouso. Somos seres visceralmente “pascais”. Páscoa é ter diante de si os desafios da vida. É preciso remover as pedras que foram soterrando a vida dentro de nós e romper os muros que cercam nosso coracão. Viver como ressuscitados é reconhecer que nossa vida está “estreita” e que precisamos nos situar num horizonte diferente. Viver é “recriar-se”.

 

Em Jesus acontece algo totalmente novo; Ele traz uma nova maneira de viver que não cabe nos nossos esquemas. A ressurreição é uma novidade que rompe velhos barris.

 

A mudança de mente, de coração, de paradigmas… exige de nós que, de tempos em tempos, revisemos nossas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando idéias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver… que impedem a entrada da luz da ressurreição.

 

Nada mais contrário ao espírito pascal que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranqüilizadores… Na ressurreição, a vida é um fenômeno que emerge de forma misteriosa; ela se impõe, simplesmente.

 

Tal realidade desperta fascinação, provoca admiração e veneração… porque a vida é sempre sagrada. Diante dela ficamos extasiados, boquiabertos, escancarados os olhos e afiados os ouvidos. Ela nos atrai por sua força interna. A vida é sempre emergência do novo e do surpreendente. Sequer nos é permitido tocá-la de qualquer jeito. Ela exige certo rito; é proibido passar por cima dela. Somente podemos estabelecer um diálogo com ela: assim abriremos horizontes e viveremos na verdade.

 

“Viver como ressuscitados” é viver como aquelas pessoas que tiveram uma experiência limite da morte (por enfermidade, acidente…); elas experimentam uma mudança radical em suas vidas. Sua atitude diante da vida é totalmente diferente; vêem-na com olhos novos.

 

Alberto Caeiro queria que voltássemos a olhar o mundo como as crianças que o estão vendo pela primeira vez. Aí, tudo é assombro, espanto, encantamento, fantástico, maravilhoso… É através dos olhos que as crianças, pela primeira vez, tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo.

 

A vida é sempre emergência do novo e do surpreendente. Ela exige certo rito; é proibido passar por cima dela. Somente podemos estabelecer um diálogo com ela: assim abriremos horizontes e viveremos na verdade

Marcadas pela ressurreição, as pessoas captam muitos detalhes que antes não haviam percebido, vivem intensamente, amam com mais paixão, prestam atenção a muitas coisas que antes lhes passavam desapercebidas. Tem um comportamento diferente para com os outros; há, nestas pessoas, mais ternura, são mais sensíveis à dor e à injustiça. Ao saborear o presente da vida, vivem como se fossem ressuscitadas. Crêem que, amando mais a vida, se afastarão mais da morte e resistirão às hostilidades do mundo presente.

 

E, no entanto, continuam vivendo na mesma casa, no mesmo trabalho, fazendo as mesmas coisas… , mas seu olhar audacioso desperta as consciências, sacode as velhas estruturas, derruba os muros da exclusão.

 

Olhar que se desgruda do saudosismo, do passado remoído… Olhar que rompe ataduras, desmancha condicionamentos, arranca do fatalismo… Olhar inquietante que sonda a verdade, que suscita comunhão.

 

Todos sabemos que o ser humano, embora extremamente limitado e frágil, é potencialidade de vida. E a vida não se define biologicamente pela quantidade de batidas do coração ou ondas cerebrais.

 

Portador de uma vida inesgotável, o ser humano vive para mergulhar em algo diferente, novo e melhor. Nossa vida não é um problema a resolver, mas uma experiência a acolher, uma aventura a amar e um mistério a celebrar. Ela tem a dimensão do milagre e carrega no seu interior o destino da ressurreição.

 

A vida, desde o mais íntimo da pessoa humana, deseja ser despertada e iluminada em plenitude. Vida plena prometida por Jesus: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo. 10,10). Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; é inútil permanecer junto ao túmulo. Porque o ausente “aqui” está presente na “Galiléia”. E a Galiléia é o lugar do compromisso com a vida, a justiça e a paz.

 

Textos bíblicos: Mt. 28,1-10 Lc. 24,13-35

 

Na oração: Para viver a partir do ser mais profundo, é preciso dedicar uma atenção especial ao próprio coração e aprender a regozijar-se da maravilhosa vida de Deus em cada um de nós.

 

Basta um repouso e o estar presente para fazer acalmar a agitação interior e aproximar-se da fonte da vida.

 

Removida a pedra, resta caminhar… E o Mestre, com um corpo marcado pela Paixão, chama-nos pelo nome… 

 

Pe. Adroaldo Palaoro, S. J.