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Respeito e misericórdia – Artigo do Padre Márcio Paiva

A entrada na era da globalização parece ter descortinado uma nova etapa na história da humanidade, marcada justamente pelo encurtamento das distâncias e pela aproximação entre culturas diferentes. Mas ainda permanece o desafio de verdadeira dialogia entre as culturas e a construção de pontes que unam os vários povos. Não basta que o mundo fique interconectado em torno do planeta Terra, mas antes é preciso descobrir laços metafísicos que unam as diferenças, que apontem para o bem comum, que construam a verdadeira paz.

Seguindo a lógica da sociedade do conhecimento, profundamente caracterizada por uma cultura secular e plural, o fosso entre os povos parece aumentar. Nessa perspectiva o que entra em jogo é o bem estar, o consumo e o avanço das tecnologias. É nesse cenário que gostaria de refletir sobre respeito e misericórdia. Acredito que outra lógica é possível para a vida humana. O logos herdado dos gregos e que culmina na atual cultura tecnocientífica não dá conta dos valores espirituais que trazem sentido à vida humana, pois se trata de uma lógica do cálculo e do controle, muito importante em processos e coisas, mas insuficiente para o ethos, a vida, o afeto, o encontro.

 

Respeito e misericórdia instalam a cultura do acolhimento, do encontro e do cuidado: caminhos urgentes para a superação das crises da humanidade atual, para a produção de sentido para a vida no mundo e para a construção da Paz

Desse modo, é preciso falar do respeito que brota de outra lógica: a proximidade. A lógica da proximidade é misericórdia pura, é acolhimento antes do juízo, é encontro antes de proclamar a diferença, é cuidado cheio de ternura: “Cuide dele. Quando voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver” (Lc 10, 35). A misericórdia pauta-se pela linguagem do coração que toda a criação entende e pelo afeto essencial que destrói muros, desnucleia egos, desinstala desânimos. A misericórdia é o plus da justiça, o metá da razão, é o laço metafísico encarnado quando se acolhe, se encontra e se cuida reciprocamente.

Diante do que estamos refletindo, não podemos deixar de citar o Papa Francisco quando diz: “Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (Misericordiae vultus, nº 2). É esta proximidade de Deus com os homens que constitui o núcleo mais essencial do que seja misericórdia. Somente na perspectiva dessa lógica a humanidade na era da globalização construirá pontes e dialogia.

Fruto maduro da misericórdia é o respeito, não apenas considerado como categoria moral, mas como horizonte permanente de todo o agir humano. O respeito originário é o caminho para a superação das diferenças, para a aproximação entre as pessoas e para o combate da violência. Muitas vezes, os recursos tecnológicos, com destaque para a internet, possibilitam a convivência com o diferente. Mas, envolvido em embates políticos, religiosos e culturais, frequentemente, o ser humano desrespeita o seu semelhante, age de forma agressiva, ferindo a dignidade da pessoa. Por isso, mais uma vez, não basta o avanço tecnológico, pois pode apenas potencializar múltiplas formas de violência. É preciso dar um passo atrás e reconhecer a alteridade do outro, na qual me encontro e me reconheço: a isso se dá o nome de respeito. Mas respeito só é possível na lógica da proximidade. Enquanto o conhecimento separa, o respeito nos une. Enquanto a tecnologia é ambígua, a misericórdia é cheia de ternura.

Por fim, respeito e misericórdia instalam a cultura do acolhimento, do encontro e do cuidado: caminhos urgentes para a superação das crises da humanidade atual, para a produção de sentido para a vida no mundo e para a construção da Paz.

Pe. Márcio Paiva

Professor da PUC Minas, apresenta na TV Horizonte

o  programa Conexões: espiritualidade e cotidiano