Você está em:

Raízes judaicas da homilia


A menorá é utilizada como símbolo do judaísmo porque estava presente no Templo de Jerusalém

Na antiga liturgia das sinagogas se deitam as raízes da homilia da Igreja. Baseado no livro de Neemias1, alguns estudiosos propõem um esquema ritual do sábado que se aproxima da liturgia sinagogal no tempo de Jesus: entronização da Lei de Deus em lugar ostensivo, proclamação e escuta da Palavra, bendição, adoração, explicação da Palavra, conversão, envio da comunidade em espírito de festa e alegria2. Pode-se dizer que tais elementos coincidiriam, em parte, ao esquema litúrgico das sinagogas do tempo de Jesus. É necessário considerar que existiam variantes litúrgicas por região e testemunhos escassos

Os profetas eram lidos depois da leitura da Torá (pentateuco) e, na sequência, os hagiógrafos. Numa sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4,16-30), o evangelista apresenta Jesus lendo o profeta Isaías (61,1-2), entre a Torá e os escritos (hagiógrafos). A meditação dos textos eram realizadas pelo targum, termo que aqui merece uma explicação:

Targum significa tradução, explicação, interpretação, e com ele entende-se a tradução dos livros bíblicos do hebraico para o aramaico. Depois da volta do exílio babilônico, já a língua aramaica vinha progressivamente substituindo o hebraico. Surgiu então a necessidade de traduzir o texto bíblico para torná-lo compreensível a todos3.

A literatura targúmica tornou a palavra de Deus acessível a todos. Isso reforça o sentido  da palavra homilia, enquanto conversa familiar, próxima, íntima

Carmine di Sante, ao esclarecer o sentido do targum, acrescenta: “a literatura targúmica dá testemunho de uma coisa muito importante: que no judaísmo a Torá deve ser compreendida e interpretada por todos”. Ao fazer recurso aos targuns, os rabinos buscavam aplicar o texto bíblico às situações concretas da vida, oferecendo uma interpretação da Bíblia mais existencial, próxima e atualizada da Palavra de Deus (darash)4. Mais que uma “tradução livre”, os targuns eram verdadeiras homilias e tais interpretações foram, com o tempo, tornando-se paráfrases comentadas e, além disso, tornando-se também um princípio hermenêutico, isto é, de interpretação.

Dessa primeira questão que suscita a liturgia sinagogal, já se pode deduzir que nas suas raízes judaicas, a homilia tinha um acentuado vínculo existencial, que exigia a proximidade entre participantes do culto e texto bíblico. A literatura targúmica tornou a palavra de Deus acessível a todos. Isso reforça, com certeza, o sentido dado pela etimologia da palavra homilia, enquanto conversa familiar, próxima, íntima. Reafirma o sentido hermenêutico da homilia, enquanto momento de meditar a Palavra proclamada na comunidade de fé.

Exercício de observação

As celebrações da Igreja, pelos cantos escolhidos, pela homilia, monições e preces preparadas, nos aproximam da Palavra de Deus?

 

Pe. Danilo César
L
iturgista