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Solenidade de São Pedro e São Paulo

 

 

Muitas pessoas hoje dão a sua vida pelo amigo Jesus. Na dedicação diária da sua vida aos irmãos, à família, ao evangelho e à Igreja. São pessoas comuns, que por estarem muito perto de nós acabamos por não reconhecer a sua oferta diária, o seu sacrifício existencial contínuo, a sua amizade profunda e enraizada pelo Mestre. Alguns desses são chamados ao testemunho com o derramamento do sangue

 

Pe. Danilo César*

Celebramos, no último domingo, dia 3 de julho, a Solenidade de São Pedro e São Paulo, apóstolos chamados de “Colunas da Igreja”. A notoriedade dos dois faz-se sentir na liturgia, que lhes dá uma celebração no grau de solenidade, podendo inclusive ser transferida para o domingo, o que de fato acontece no Brasil, conforme as normas da liturgia.1 A importância de Pedro e de Paulo para a Igreja está na própria pessoa de Jesus. A vida dos dois apóstolos girou em torno da vida de Jesus. Seu testemunho apostólico, seus ensinamentos e sua missão foram decisivos para a configuração da Igreja nascente.  Assim, na oração após a comunhão, pedimos a Deus a graça de viver na Igreja, perseverando na doutrina dos apóstolos, na fração do pão e enraizados no amor de Deus, para ser um só coração e uma só alma. Isso poderia ser dito de outro modo: viver em torno de Jesus, como Pedro e Paulo, pois na Palavra (ensinamento dos Apóstolos), na liturgia (fração do pão), e no amor ao próximo (amor de Deus) não fazemos outra coisa senão nos orientar para Cristo.

Conhecer Jesus define quem somos

Jesus pergunta aos discípulos o que andam dizendo a respeito dele. A resposta, ao mencionar a proximidade de Jesus com outros profetas, no mínimo reconhece-lhe o perfil profético. Mas quando Jesus volta a questão para os discípulos, “quem sou eu para vocês?” (cf. Mt 16,15), Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (v.16). Resposta acertada, e Jesus o declara “feliz” ou “Bem aventurado” por reconhecer a sua identidade, contudo, um pouco adiante fica claro que esse é um reconhecimento sobre Jesus ainda desconectado da cruz. Pedro tentará impedir Jesus de seguir o seu caminho e o evangelista Mateus põe em paralelo à bem-aventurança, uma grande reprovação de Pedro (cf. Mt 16,22-23). Só mais tarde, o apóstolo entenderá o sentido do messianismo de Jesus que lhe foi revelado pelo Pai.

Seja como for, a resposta de Pedro tem outro desdobramento, além da sua bem aventurança: é declarado como a pedra sobre a qual Jesus construirá sua Igreja. A palavra Kepha, sugere a ideia de rocha escavada para abrigar. Esse atributo dado a Pedro será dado igualmente à comunidade dos discípulos que, ouvindo a palavra, constroem sua casa sobre a rocha (cf. Mt 7,24). A própria carta de Pedro chamará os cristãos de pedras vivas (cf. 1Pd 2,5). Pedro recebe o poder de ligar e de desligar, mas também aos discípulos, quando reunidos em nome de Jesus, é dado o mesmo atributo (cf. Mt 18,18). Pedro recebe as chaves do Reino. Ampliando o simbolismo das chaves, os discípulos de Jesus são chamados a se distanciar dos escribas e fariseus que não entram no Reino e não deixam entrar (cf. Mt 23,13). Isto é, os cristãos devem entrar e deixar entrar. Em outras palavras, Jesus reconhece em Pedro aquilo que é de toda a comunidade cristã! A mesma narrativa põe lado a lado a identidade de Jesus e a identidade de Pedro, que outra coisa não é que a identidade dos discípulos de Jesus. O conhecimento de Jesus, de sua identidade messiânica, molda o ser discípulo e a própria identidade.

Paulo, em testamento

 


Pedro e Paulo são pessoas como
nós, que deixaram
Jesus fazer
parte de suas vidas, acolhendo-o como
amigo que
transformou as
suas existências e dedicando a ele todo o seu viver

Paulo, na segunda carta a Timóteo, faz uma despedida, resumindo a sua imitação de Cristo: antevê a sua morte em tom sacrifical, cumpriu sua missão de fiel anunciador, aguarda de Deus a recompensa por ter guardado a fé, sente-se amparado e já libertado. O Senhor, para Paulo, está sempre com ele, fortalecendo-o, premiando-o com a salvação, com a libertação do mal e, como justo Juiz, reconhecendo, com a coroa da justiça que a todos dará no último dia. Paulo não arroga para si um lugar exclusivo. Ele diz: “não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa” (v.8). A inclusão dos demais faz supor que “sua corrida” é frequentada por todos os fiéis, que a fé que guardou deve ser guardada por todos, que a mensagem que anunciou deve ser por todos anunciada e que o bom combate que combateu é o mesmo de qualquer cristão.

Limites e qualidades dos apóstolos

Fazendo um recuo maior na história de Pedro e Paulo, vemos dois homens com suas qualidades e limites. Pedro, de pescador de peixes, torna-se pescador de homens. Segue o Mestre de Nazaré, mas custa a compreender o sentido messiânico da missão de Jesus. Na hora da cruz, chega a negar o Mestre por três vezes. Seus limites, no entanto, não foram impedimento, nem para Jesus, nem para Pedro. Foi escolhido como discípulo que confirmaria a fé dos demais irmãos e se tornou coluna da Igreja. Paulo, judeu zeloso e sábio educado aos pés de Gamaliel, foi perseguidor de cristãos. Depois de seu encontro com o Cristo, a caminho de Damasco, torna-se cristão perseguido e ardoroso anunciador do evangelho da cruz, passando a ser chamado de apóstolo dos gentios, coluna da Igreja. Mesmo depois da ressurreição, parece que ainda enfrentaram algum desacordo em relação à circuncisão dos cristãos convertidos do paganismo, contudo, souberam superar também esse limite.

Pedro e Paulo são pessoas como nós, que deixaram Jesus fazer parte de suas vidas, acolhendo-o como amigo que transformou as suas existências e dedicando a ele todo o seu viver. Atingem o conhecimento de Jesus pelo seguimento e pela própria vida que levaram, não pelo conhecimento que é fruto do esforço humano (cf. Gl 1,15-16). O conhecimento de Jesus levou-os a se identificar com o Mestre, tomando do seu cálice, isto é, vivendo a páscoa de Jesus. A antífona de entrada da missa do dia afirma: “Eis os santos que, vivendo neste mundo, plantaram a Igreja, regando-a com seu sangue. Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”. A incontestável transformação operada em ambos é fruto dessa amizade com Jesus, a qual todos somos chamados.

Beber do cálice do Senhor hoje

Pedro e Paulo beberam do cálice do Senhor. A eles foi dado o convite que a nós todos é dado: seguir Jesus na amizade. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13), dirá Jesus no quarto evangelho. Jesus é o amigo que a todos deu sua vida. Paulo e Pedro correspondem, dando suas vidas a Jesus, até o ponto de beber do seu cálice, isto é, ao ponto de experimentarem por causa d’Ele, o derramamento do sangue, um pela cruz e outro pela espada (cf. solene benção final). Nesse caminho de identificação com o Senhor, pela cruz e pela ressurreição, vamos deixando que Cristo viva em nós, como afirmou Paulo (cf. Gl 2,20), e como nos narrou, o livro dos Atos dos Apóstolos, a prisão de Pedro, tal qual foi com Cristo em sua paixão (cf. primeira leitura).

Muitas pessoas hoje dão a sua vida pelo amigo Jesus. Na dedicação diária da sua vida aos irmãos, à família, ao evangelho e à Igreja. São pessoas comuns, que por estarem muito perto de nós acabamos por não reconhecer a sua oferta diária, o seu sacrifício existencial contínuo, a sua amizade profunda e enraizada pelo Mestre. Alguns desses são chamados ao testemunho com o derramamento do sangue. Como Pedro e Paulo levaram ao extremo o que é o quotidiano de todo cristão, chamado a ser chave que abre e inclui no Reino, a ser pedra que dá firmeza e abriga, a ser anunciador do evangelho e da salvação.


*Padre Danilo César Santos Lima
é liturgista e pároco
  da Paróquia Santana, na Arquidiocese de BH