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Quando a Liturgia “transgride”

Em sua obra, “Liturgia secondo Gesù”, estabelece a noção de “clima existencial”  para falar da vida cristã como verdadeiro ato de culto e a Liturgia como experiência e expressão desta vida, como seu momento ritual, de modo que o culto cristão não se exaure nos ritos. [1] A celebração cristã se orienta para a transformação da vida, no sentido de aproxima-la mais e mais do Evangelho de Jesus, estabelecendo-o como sentido e destino. Como dirá o monge Christian no filme “Homens e Deuses”, ao interpretar diante dos irmãos o momento histórico que experimentam, tendo como referência a liturgia do Natal:

 

“Nós cantamos o Natal e acolhemos aquele menino que se apresentou a nós, totalmente indefeso e já tão ameaçado. E depois a nossa salvação foi ter tantas tarefas cotidianas, a cozinha, o jardim, as rezas, os sinos e dia, após dia, e, era preciso nos deixar desarmados. E dia, após dia, eu penso que nós juntos descobrimos: aqui Jesus Cristo nos convida a nascer. Nossa identidade de homem segue de nascimento em nascimento e de nascimento em nascimento vamos acabar nós mesmos trazendo a este mundo o filho de Deus que nós somos. Porque a encarnação para nós é permitir que a realidade filial de Jesus se encarne em nossa humanidade. O Mistério da encarnação abriga aquilo que nós vamos viver.”[2]

 

A Liturgia tem por finalidade, portanto, gerar em nós a imagem do Filho. Esta transfiguração só é possível se os gestos e palavras que compreendem seu complexo ritual forem memória do Verbo. Memória sensível e perigosa, que desestabiliza, rompe e destrói com tudo aquilo que, em nós e no mundo, se opõe ao amor de Deus que em Jesus se nos é revelado. Uma ação que a Igreja implementa e que, não poucas vezes, pode ser transgressora da ordem estabelecida social, política, cultural e até mesmo, eclesiasticamente. Ritos que fazem desmoronar tradições menores no interior da própria Igreja. Tradições – mesmo em sua expressão ritual – que perderam sua importância no contexto do testemunho evangélico e que devem dar lugar às novas expressividades do Mistério Pascal. Como na Liturgia dos primeiros três séculos: livre, íntima, cotidiana, fraterna, informal e desafiadora do status quo. Fruto do labor do Espírito que sopra onde quer e que, por onde passa, revitaliza.

 

Di Simone, neste sentido, insiste que a Liturgia cristã necessita deixar-se mover na direção da ablatio e da oblatio. Respectivamente, permitir-se reformar, removendo-lhe tudo quanto não contribui para a experiência e expressão do Mistério de Cristo, de modo que a Liturgia mesma tenha como gesto fundamental e significativo a entrega de Cristo, à medida que guarda e comunica seu amor, único sacrifício agradável a Deus.[3] Mas, é bom que não se esqueça: “Não se faz oblação litúrgica sem ablação ‘idólica’”.[4] Isto é, sem remover o fixismo das formas, quando estas já não responder ao “espírito” que devem encarnar. Segundo o autor, isso coincide com a dessacralização de tradições e ritos que já não comunicam o Mistério Pascal de Jesus com aquela eloquência transformadora.

 

Essa tarefa é urgente e a Liturgia reformada a partir do Concílio Vaticano II tem toda potencialidade para realizá-la. Urge tomá-la em sério, sobretudo quando se vive um clima de retorno àquelas tradições menores, àquelas formas rituais que perderam sentido e significado com o passar dos séculos. Tem-se esboçado na Igreja uma espécie de nostalgia do sacro, que na verdade, se mostra “idólica”, sobretudo porque não reconhece as necessárias transformações que a reforma litúrgica previu e cumpriu em benefício da renovação da vida cristã. Sacro em sentido pagão, que vê a forma ritual em si mesma e não como elã entre as pessoas de hoje e o Mistério de Cristo que se dá na Igreja. Ritos de uma Comunidade de Fé semper reformanda, em trânsito constante, em permanente estado pascal, como diria Francisco, uma Igreja “em saída”. A Liturgia pós-conciliar, por seus ritos e preces, desafia estes esquemas ultrapassados e clama por uma acolhida sempre mais exigente e responsável. Esta Liturgia, ação de Cristo acolhida e posta em marcha em seu Corpo eclesial, precisa mesmo transgredir, quando a riqueza do evangelho põe-se em perigo; quando em nome de uma sacralidade em pouco ou nada relacionada ao sacro vivido e anunciado por Jesus, não se reconhece as riquezas promovidas pela reforma dos ritos, nestes últimos cinquenta anos; quando  a renovação da vida cristã e da própria compreensão da Liturgia e sua celebração se vê obscurecida e refutada por nomes e fontes tidas como veneráveis, mas que, na verdade, prestam um desserviço à mesma Igreja porque dividem e confundem. Sobretudo quando tentam remendar – desnecessariamente – o novo com trapos e farrapos. Vinho novo em odres novos: isso o Concílio já tratou de providenciar. Não deixemos que o frescor do Espírito  se perca.

 

[1] Cf. DI SIMONE, Leo. Liturgia secondo Gesù. Originalità e specificità del culto Cristiano. Per il retorno a uma liturgia più evangelica. Firenze: Feeria, 2003, p.271-278; 306-312.

[2] BEAUVOIS, Xavier. Des hommes et des dieux. França: 2010.

[3] DI SIMONE, Leo. Liturgia secondo Gesù, p. 354-357.

[4] Idem, p. 357. Na falta de uma palavra portuguesa para idólico, mantivemos o termo cujo significado refere-se a romper, renunciar àquilo que tem caráter de ídolo.