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Próximas eleições e próximas gerações


Um polá½·tico pensa nas prá½¹ximas eleições; um estadista nas prá½¹ximas gerações

 

Em plena campanha eleitoral e às vésperas do pleito que deverá escolher o presidente da Repá½»blica, os governadores dos estados, os senadores e deputados federais, estamos num momento oportuno para refletir seriamente sobre a célebre frase do escritor espanhol Noel Clarasá½¹: “Um polá½·tico pensa nas prá½¹ximas eleições; um estadista nas prá½¹ximas gerações”. Traduzida em bom português do Brasil, a frase poderia soar da seguinte maneira: um politiqueiro pensa nas prá½¹ximas eleições; um polá½·tico nas prá½¹ximas gerações.

Entende-se por “politiqueiro” o canditato de carreira, interessado em utilizar as instâncias do universo relacionado à ação polá½·tica para manter e/ou conquistar privilégios, sejam estes de ordem pessoal, familiar, corporativa ou pardidária. Polá½·tico, em contrapartida (e com P maiá½»sculo, como se costuma dizer), é aquele que se lança no campo da administração pá½»blica com a inteção de empenhar-se pela justiça, pela paz e pelo bem comum, o que significa trabalhar pela defesa dos direitos humanos dos que encontram-se mais marginalizados e excluá½·dos.

Desse modo, não é difá½·cil dar-se conta que o primeiro se caracteriza por uma “visão de curto prazo”, de olho nas vantagens imediatas que lhe pode trazer o processo eleitoral, ao passo que o segundo costuma ter uma “visão de médio ou longo prazo”, de olho no que pode ser feito para melhorar as condições reais da populção. Em outras palavras, enquanto um avalia todas as oportunidades (oportunismo) de ganho pessoal, familiar ou partidário que a polá½·tica pode oferecer, com vistas a enriquecer o prá½¹prio patrimá»™nio, o outro procura seguir um prorgrama ou projeto estabelecido, no sentido de enriquecer o ná½·vel de vida do maior ná½»mero de pessoas, com particular atenção aos extratos de baixa renda.

 

Da mesma forma que a corrente de um rio
corre sempre para o
mar, tudo converge
para a temática da ética na polá½·tica

Seguindo os termos de Clarasá½¹, a “visão curta” do polá½·tico (politiqueiro) mal alcança o ná½·vel conjuntural da situação econômica, social, polá½·tica e cultural do paá½·s. Navega nas águas superficiais do panorama sociohistá½¹rico, tratando de pescar e acumular o fruto do trabalho da sociedade como um todo. O estadista (Polá½·tico), pelo contrário, com uma “visão de longo alcance”,mergulha nas águas profundas da realidade. Trata de entender as causas histá½¹ricas e estruturais das assimetrias, injustiças e desequilá½·brios socioeconômicos, bem como suas implicações e consequências, na tentativa de buscar solução para os problemas reais que se apresentamem um cenário mais amplo.

Muita coisa poderia ainda ser dita, escrita e publicada sobre a postura e o comportamento de um e de outro. Apenas dois aspectos a serem sublinhados. O primeiro é que, da mesma forma que a corrente de um rio corre sempre para o mar, tudo converge para a temática da “ética na polá½·tica”. São iná½»meros os livros, artigos e frases que circulam sobre o assunto, mas poucos os que conseguem efetivamente mudar a prática de “fazer polá½·tica”. Como diz o velho ditado, “a raposa troca de pelo, mas não troca de vá½·cio”. Aliás, não é sem razão que os politiqueiros tradicionais costumam ser chamados de raposas. E estas, bem o sabemos, quanto mais velhas, mais espertas na arte de exercer e passar adiante suas manhas. No Brasil (e não sá½¹), as raposas politicas contam com “currais” e “cabos” eleitorais para perpetuar as oligarquias mais obtusas, reacionais e retrá½¹gradas.

O segundo aspecto é mais complexo e delicado: na realidade do cotidiano, polá½·ticos e politiqueiros não se encontram restristos em limites ná½·tidos e precisos. Bem ao contrário, ambos se mesclam, se confundem e se alternam de forma espantosa. Ao mesmo tempo que podem entrar em rota de colisão sobre determinados assuntos e interesses, também podem dar-se as mãos para uma má½»tua defesa. A razão é simples: sempre nos termos de Noel Clarasá½¹, não raro um verdadeiro estadista se transforma em polá½·tico/politiqueiro no ato de ser eleito e tomar posse do mandato. Mais difá½·cil é a metamorfose em sentido inverso, isto é, de polá½·tico/politiqueiro ao verdadeiro polá½·tico/estadista.

 

Pe. Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais
Adital