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As religiões primitivas pagãs vinculavam suas práticas ao ritmo da natureza. O Povo de Israel, mesmo ao introduzir a memória histórica dos feitos grandiosos de Javé em favor dele, associou-os nas celebrações litúrgicas aos fenômenos da natureza. O cristianismo nasce da paixão, morte e ressurreição de Jesus que aconteceram na história. Portanto, privilegiou a história em relação à natureza para determinar as festas do ano litúrgico.

No entanto, a conversão do Império romano levou para dentro dos ritos cristãos elementos do ritmo da natureza, facilmente observados nas  expressões da fé cristã.

Para os países nórdicos, a Páscoa cai na primavera. Nada tão espontâneo como ver no contínuo renascer da natureza o mistério da morte e ressurreição de Jesus. Ele renasce para a vida eterna vencendo a morte de maneira definitiva. As nossas primaveras se repetem, mas a primavera divina de Jesus aconteceu uma só vez. Só se repete no rito, no símbolo, na realidade sacramental, mas nunca na história.

E para nós do hemisfério sul: que significa a primavera que se anuncia para setembro? Estamos em pleno “Tempo comum” na linguagem litúrgica.
 

Setembro assumiu
a beleza de pôr a Escritura no centro da vida cristã. Lugar que a Palavra de Deus merece

Feliz ideia teve a Arquidiocese de Belo Horizonte, assumida por toda a Igreja do Brasil, de associar setembro à Bíblia. O mês assumiu a beleza de pôr a Escritura no centro da vida cristã. Lugar que a Palavra de Deus merece. Quando o europeu olha liturgicamente para a primavera, pensa na Páscoa. Nós do Sul, misturamos a vitalidade da natureza com a força animadora da Sagrada Escritura.

Cabe-nos, logo de início, fazer a pergunta se possuímos uma Bíblia, não como enfeite, mas como instrumento de uso. Se não, vale a pena gastar um dinheirinho para adquiri-la. Há várias traduções disponíveis. Aprecio a tradução da CNBB (disponibilizada pela Arquidiocese de BH). Outras oferecem notas mais abundantes como a Bíblia de Jerusalém [São Paulo: Paulinas, 1989] e a Tradução Ecumênica da Bíblia [TEB: São Paulo: Loyola, 1994].

A primavera florirá no coração de cada um de nós, se nela lermos e meditarmos a Bíblia. Que diferença existe entre ler e meditar? A leitura persegue a intelecção do texto. Ajudamos com os recursos dos dicionários e dos comentários. Eles nos desvendam a dificuldade de compreensão de textos escritos faz milênios, de enorme distância cultural. Lemos e entendemos um texto se sabemos responder a pergunta: que diz o texto?

Meditar se faz antes com o coração. A pergunta soa outra: que significa o que acabamos de ler para a nossa vida e alimento espiritual? Em que nos questiona a maneira de viver? E concluímos a meditação com a terceira pergunta: como traduzir a leitura feita em atos, na prática? E em passo ulterior missionário: que partilharemos com as pessoas de nossa convivência do lido e meditado? Feliz primavera bíblica!

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)