Você está em:

“O Ano da fé” que se iniciou a 11 de outubro de 2012 encontra seu término neste domingo ( 24/11), na Festa de Cristo Rei. Quis celebrar, com empenho pessoal de cada cristão, os 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II e os 20 anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica em ligação com o Sínodo da Nova Evangelização.

A Carta Apostólica de Bento XVI Porta fidei – Porta da fé – usa o símbolo da porta por onde se adentra na fé. A reflexão permite-nos dupla consideração. O Papa apontou duas portas de entrada: para Deus e para a vida comunitária na Igreja. Avançando na reflexão, cabe outra pergunta: que portas nos abrem para a fé? Mudamos a preposição “de” pela “para”.

Deus assume o papel de abrir-nos a porta do coração para a fé. Deus age fundamentalmente de duas maneiras. Extremamente misterioso atua pessoalmente na nossa vida. Sabemos que o faz, mas temos dificuldade de pontuar-lhe a ação. Os místicos o experimentam com evidência. Mais comumente o vivenciamos nas experiências humanas.

A primeira se implanta no nosso interior. A teologia clássica usa a belíssima expressão: Deus, a Verdade primeira, o Amor fundamental nos atrai para ele. Ao deixar-nos ser atraídos, mergulhamos no mundo da fé.
        
Outros debruçam-se sobre estudos, reflexões e a inteligência esbarra, em dado momento, com a pergunta sobre Deus. A inteligência abre a porta para que toda a pessoa entre no mistério de Deus e afirme sua existência, acolhendo-a, não sem a graça do mesmo Deus.

Não faltam aqueles que se aproximam da fé pela vivência numa comunidade. Lá sentem a interpelação de Deus. Repetem a experiência de pagãos do início do cristianismo que exclamavam: vejam como eles se amam! Não faltaram os que se acercaram da fé cristã pela via do testemunho de comunidade.

 

Deus com infinito amor e sabedoria providencia para seus filhos situações e experiências que os acordem para a fé. Elas se transformam em verdadeiras “portae fidei”

Hoje bate forte nas portas de todos a ventania das espiritualidades, as mais diversas. Tocados, até mesmo por sussurros superficiais, midiáticos, de repente, perguntam se por trás não existe algo de mais profundo. E assim as pessoas se percebem às portas da fé que se lhes abrem.

Outros deparam com impressionantes testemunhos de fé, como o de Teresa de Calcutá. Suspeitam que algo deva existir nessas pessoas que as mova a tal vida. E tentam inteirar-se e aí eis que lhes surge a porta da fé.

Ultimamente, a ecologia tem despertado sentimentos religiosos. E a experiência da beleza da natureza e da necessidade de conservá-la tem provocado em pessoas profundas a descoberta do Deus criador e providente.  No meio simplesmente outras portas. Está aí a práxis de cristãos comprometidos com a justiça. A experiência escatológica da presença, já agora de realidade anunciada em plenitude para amanhã, mexe com os corações não satisfeitos com o presentismo pós-moderno. E a beleza? Quantos a contemplam e chegam até à beleza infinita de Deus! Não faltam os que, pelo contrário, ao experimentarem alguma catástrofe, sofrimento grave, perda dolorosa, despertam para a Transcendência e vislumbram a porta da fé.

Enfim, Deus com infinito amor e sabedoria providencia para seus filhos situações e experiências que os acordem para a fé. Elas se transformam em verdadeiras “portae fidei”. Que o término do Ano da Fé não feche nenhuma porta da fé, mas as deixe todas abertas.

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)