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Por um Brasil bem-aventurado

Vivemos dias históricos em nossa pátria. Um sentimento de indignação tomou conta de milhões de brasileiros, especialmente jovens, que foram às ruas protestar, manifestar, clamar. O que incialmente em São Paulo era um movimento pedindo a redução das tarifas do transporte público tomou proporções talvez nunca vistas neste imenso país. As demandas se desdobraram e os protestos parecem pedir inúmeras mudanças.
 

A fé cristã trazida a esta terra pelos missionários tanto católicos quanto protestantes é elemento constitutivo de nossa brasilidade.

O Brasil congrega muitas riquezas. A primeira delas é pura dádiva divina: a riqueza natural. A segunda delas é o povo brasileiro, com sua história e jeito próprio de ser, fruto do encontro de culturas diversas, reconhecidamente a indígena, a europeia e a africana. Índios, brancos e negros e, mais tarde, também os orientais contribuíram para a constituição de um povo com grande capacidade de acolher a diversidade e estabelecer laços de fraternidade. A fé cristã trazida a esta terra pelos missionários tanto católicos quanto protestantes é elemento constitutivo de nossa brasilidade.
 

Nossa história não é apenas de glórias. Como outros povos, temos também nossas fraquezas. O Brasil dos últimos anos desenvolveu-se e cresceu. Mas há graves problemas que neste momento, como a força de águas até então represadas, arrebentam o dique. Isto fez o povo encher as ruas e clamar por justiça, paz, lealdade, segurança, saúde e educação de qualidade, dignidade e muito mais.

 

Nós cristãos participamos deste momento como portadores de uma mensagem de vida e construtores de uma sociedade fraterna. Reconhecemos que a partir de nossas famílias e comunidades somos corresponsáveis na transformação do Brasil. Um país não se transforma por si mesmo. Qualquer transformação pedirá sempre a ousada coragem de quem abraça um estilo de vida coerente com os valores fundantes de uma sociedade democrática, fraterna e justa. Estes valores são passados através do testemunho e do exemplo que são as mais eficazes formas de educação.
 

A partir de nossas famílias e comunidades somos corresponsáveis na transformação do Brasil.

O mundo poderá nos indagar: onde está a força do Evangelho num país de maioria cristã que não tem conseguido superar a corrupção, a violência e a impunidade? Olhando para nós mesmos, não poderíamos responder de outro modo senão com a seguinte afirmação: urge, pois, a conversão.

 

Como cristãos, temos um patrimônio espiritual único, que deve ser colocado a serviço da vida, da esperança e do novo Brasil. O espírito das bem-aventuranças (Mt 5,1-12) é um programa mais que viável para soluções de tantos impasses. “Fome e sede de justiça” é um programa de vida capaz de mudar primeiro cada um de nós e, consequentemente, toda a sociedade.

 

A promoção da paz é possível e mais que necessária. Ela começa nos gestos pequenos e delicados do cotidiano. Para nós, eu arrisco dizer, não se trata em primeiro lugar de estratégias de mudança. Como ponto de partida está o desafio de viver a espiritualidade cristã. Inspirar-nos no programa de vida apresentado pelo Senhor Jesus nas bem-aventuranças e tudo fazer a cada dia na perspectiva do Reino de Deus. Banhar nossas igrejas e comunidades com a profética insistência de um seguimento fiel a Jesus e ao seu Evangelho. Trabalhar incansavelmente para superar a miséria e a fome. Ouvir os clamores dos pobres e comprometer-se com suas lutas.

 

A promoção da paz é possível e mais que necessária. Ela começa nos gestos pequenos e delicados do cotidiano.

Para um Brasil justo, honesto, fraterno, bem-aventurado, cabe também a nós, cristãos e pessoas de boa-vontade, participar através do diálogo, das atitudes e dos comportamentos exemplares, semeando a esperança e praticando a justiça e o amor. E o resultado é certo. É promessa de Cristo: sereis felizes! 

                                                                                       
Dom João Justino de Medeiros Silva
Bispo-auxiliar de Belo Horizonte