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Lembro-me hoje das vezes que, lá em casa, nossa mãe anunciava que iria ao centro da cidade para fazer compras e, por isso, nos deixaria por algumas horas. Coisa difícil para as crianças é conseguirem conviver com a falta e, nesses momentos dramáticos, elas perdem a dimensão do tempo. Assim, alguns minutos tornam-se uma eternidade.

 

“Tudo bem! Não pense que vai ser fácil pra senhora. Pra ser liberada, vamos ter que negociar… E hoje não estamos pra brincadeira. Além de liberar ‘cabanas no quarto’ a senhora vai ter que deixar fazer ‘piscina no banheiro”.

 

Após as argumentações de ambas as partes e tudo devidamente acertado, chega o momento da partida. Nessas horas, a razão perde o significado e dá lugar a outras capacidades humanas muito mais interessantes. Na hora de sair, depois de ter passado algum tempo se arrumando e fazendo seus belos cachos dourados, ela nos colocava em fila e passava o perfume do dia atrás de nossas seis orelhas, com a doce promessa que estaria de volta antes que o cheirinho dela terminasse.

 

O gesto, por mais simples que possa parecer para alguns, perfumou nossas vidas. Hoje somos tentados a não aceitar nenhuma argumentação e a tentar impedi-la, de alguma forma, de nos deixar esperando. Contudo, diante do inevitável da vida, só nos resta permitir que ela siga seu caminho. Enquanto isso, estaremos aqui, sentindo o cheiro gostoso de mãe que a vida nos presenteou, até o dia do nosso feliz reencontro.

 

Pe. Mauro Luiz da Silva
Pároco da PAróquia Nossa Senhora do Morro